domingo, 8 de maio de 2011

Mãe




Mãe,
Peixe,
Sim, peixe
Fui em teu aquário.

Pássaro implume
Em teu ninho.
Cordeiro
Em teu estábulo.

Ah, esse aroma de favos
De teu colo, incenso em minha infância...

A Grande Fada
Transforma em riso
O grito
Descoberta do mundo.

A mãe batiza os objetos.
A jarra de água fresca,
As toalhas,
O termômetro.

A mãe espera
Até que a aurora
Entregue o pão e o leite
No portal.

Eis a mãe
Com seus presságios
E sobremesas.

Eis o filho,
Guardião de uma herança de amor
Protegida a sete chaves
Lá onde residem
As mais cálidas lembranças
E os mais ásperos segredos.  (Luiz Coronel)


 
A todas as mães do mundo que amam e cuidam de seus filhos, não importa a idade que eles tenham.  E àquelas que, sem ter condições de criá-los, doam-nos a mães de coração e não os jogam em lixeiras e nem os deixam entregues à própria sorte.

sábado, 7 de maio de 2011

Bacia do Xingu – A Pandora Brasileira

Gosto de filmes de ficção científica, principalmente daqueles recheados com efeitos especiais. Ninguém me tira esse prazer, mesmo que me digam ser perda de tempo ou infantilidade. Refugio-me no mundo da fantasia quando preciso afugentar da mente a realidade que leio todos os dias nos noticiários.

E um dos filmes que mais gostei de assistir foi Avatar. E agora soube que será lançado o Avatar II, com cenas mais emocionantes, pois será rodado com câmeras de alta velocidade. Muitas pessoas das minhas relações não o assistiram por julgá-lo bobo demais, sem muito a ver com a realidade. Só quem assistiu ao filme pode afirmar que nada tem de tolo, pois, mesmo sendo uma ficção, permite que tenhamos alguns vislumbres dos problemas da atualidade: a luta pela sobrevivência; o que realmente é importante para que se tenha uma boa qualidade de vida; o descaso com a natureza; a ganância do capitalismo; a salvação do planeta através da união de forças e outros significados.

A história se passa em Pandora, um planeta surreal habitado pelos Na’vi, seres integrados e conectados com a natureza. Eles vivem em paz, mas a chegada de seres humanos em busca de um poderoso minério que revolucionará a produção de energia ameaça o planeta e seus habitantes. Logo esses seres pacíficos veem-se expulsos das suas terras por máquinas terráqueas mineradoras, as quais devastam a flora e a fauna existente à procura de ricas minas, causando muito sofrimento ao povo que sobrevive da energia da Natureza. Aí é que entra em cena o personagem de Jake, um humano dividido entre a ambição exploradora dos humanos e a defesa da terra que sempre pertenceu aos Na’vi, um povo que desconhece o significado das palavras orgulho e arrogância. Eles não dizem “Eu amo você”, mas “Eu vejo você”, uma maneira de expressar que o outro é aceito incondicionalmente.


Talvez algumas pessoas o tenham achado “sem nada a ver com a realidade” por causa dos seres azulados e das plantas e animais surreais. Mas, se substituirmos esses seres diferentes por pessoas da nossa etnia, bem como plantas e animais da nossa flora e fauna, teremos um filme quase com o mesmo enredo, mas com o título de Belo Monte.

A “Pandora brasileira” fica no Pará e é o local escolhido para a construção da terceira maior hidrelétrica do mundo, depois da usina Três Gargantas (China) e de Itaipu (Brasil-Paraguai). A obra está prevista no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo Federal, mas o projeto existe há mais de 20 anos, sendo desenterrado no governo Lula, e não sei por quê, uma vez que, na época da ditadura, Lula e Dilma combateram  a construção dessa obra faraônica.



Para vocês saberem o tamanho da obra que devastará grande parte do território indígena, a hidrelétrica de Belo Monte propõe o barramento do rio Xingu com a construção de dois canais que desviarão o leito original do rio, com escavações comparáveis, em grandeza, ao canal do Panamá (200 milhões m3) e área de alagamento de 516km2, o equivalente a um terço da cidade de São Paulo, conforme dados da ONG CI - Brasil (Conservation Internation – Brazil) que há 18 anos trabalha pela preservação dos índios Kayapó.
Essa mesma ONG elaborou um estudo de mais de 20 mil páginas, intitulado de Estudo de Impacto Ambiental (EIA), onde comprova que, em relação à questão energética, a usina de Belo Monte operará muito aquém do esperado, tendo em vista o longo período de estiagem do rio Xingu. Ou seja, a obra mais cara do PAC não será eficiente e operará com mais perdas do que ganhos na transmissão de energia. Em vez do anunciado 11.223 MW gerará em média apenas 4.428 MW.

Na questão ambiental – aqui a analogia com o filme Avatar é mais explícita – a região pleiteada apresenta enorme biodiversidade de fauna e flora, algumas ameaçadas de extinção. Segundo os pesquisadores, o impacto da obra na bacia do Xingu não só causará perdas irreversíveis de centenas de espécies, como apresenta um modelo de desmatamento ultrapassado que não prevê reflorestamento futuro e não considera a população de 13 mil índios e 24 grupos étnicos que vivem ao longo da bacia. O barramento do Xingu representa a condenação dos seus povos e das culturas milenares que lá sempre residiram, tudo em nome da ganância e da soberba.

Acontece que, assim como ocorreu no filme Avatar, forças se reuniram a fim de salvar o território dos índios e sua diversidade social, ambiental e cultural. Houve pressões e até medidas extremadas por parte de movimentos ambientais, indígenas e religiosos e até do Ministério Público, preocupados com a preservação do meio ambiente.

A pressão foi tanta para que o projeto não fosse licenciado que, em 04/05/2011, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da OEA (Organização dos Estados Americanos), solicitou oficialmente que o governo brasileiro suspenda imediatamente o processo de construção da hidrelétrica de Belo Monte, citando o “potencial prejuízo da construção da obra aos direitos das comunidades tradicionais da bacia do rio Xingu”.

Para a CIDH, o governo brasileiro descumpriu a obrigação de realizar processos de “consulta prévia, livre, informada, de boa-fé e culturalmente adequada” ao não ter consultado de forma apropriada as comunidades indígenas e ribeirinhas da região antes de levar o projeto adiante. Milhares de pessoas seriam forçadas a se deslocarem (expulsas) de seu território sem ao menos terem garantia por parte do governo de serem alocadas dignamente para outro local onde pudessem estar a salvo de doenças e epidemias, bem como uma das regiões de maior valor para a conservação da biodiversidade na Amazônia estaria seriamente ameaçada por causa da ganância dos exploradores.

A mesma Comissão também determina ao Brasil que adote medidas vigorosas que garantam a proteção e a integridade pessoal dos povos indígenas isolados na bacia do Xingu, dando um prazo de 15 dias ao Itamaraty para informar à OEA sobre o cumprimento da determinação.

Esta decisão, ao contrário do que muitas pessoas possam pensar - “Quem é a OEA para se meter nos assuntos do nosso país?” – é uma resposta à denúncia encaminhada em novembro de 2010 em nome das várias comunidades tradicionais da bacia do Xingu pelo Movimento Xingu Vivo para Sempre, pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB); Prelazia do Xingu; Conselho Indígena Missionário (CIMI); Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH); Justiça Global e Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente (AIDA).


Por isso, não venham me dizer que isso é coisa de americanos querendo também dominar a produção de energia no Brasil. É moda culpar os americanos por todas as mazelas dos maus governantes de outros países.
Ressalto, também, que o Ministério Público Federal do Pará impetrou 10 ações judiciais contra o projeto, os quais ainda não foram julgados, e que a decisão da CIDH determinando a paralisação imediata do processo de licenciamento e construção de Belo Monte está respaldada na Convenção Americana de Direitos Humanos, na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), na Declaração da ONU sobre Direitos Indígenas, na Convenção sobre Biodiversidade (CBD) e na própria Constituição Federal Brasileira (Artigo 231).
Enalteço o excelente trabalho das ONGs. São essas associações sem fins lucrativos que fiscalizam os atos do Estado seja no âmbito Federal, Estadual ou Municipal, acompanhando os atos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, cuidando para que certos setores específicos da sociedade como meio ambiente, proteção, assistência social etc. tenham garantidos todos os direitos previstos na CFB.
Em se tratando do Brasil, as coisas não podem correr frouxas sem qualquer fiscalização.

Posto o vídeo belíssimo “Earth Song”, com o saudoso Michael Jackson - em homenagem às forças que se unem diariamente para salvar o planeta Terra da ganância dos homens.
 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Outra Face da Moeda

Por mais que as NTICs (Novas Tecnologias de Informação e Comunicação) conectem pessoas de diferentes culturas, religiões, raças, modus vivendi, modus operandi etc. em redes; por mais que proporcionem miríades de informações e troca de mensagens entre pessoas ávidas por comunicar-se de qualquer maneira e em qualquer língua; e por mais que todas essas pessoas proclamem que o advento da Internet trouxe diversas mudanças para a sociedade, sendo a mais significativa a possibilidade de expressão e socialização através das ferramentas de comunicação mediadas pelo computador, smartphones, netbooks e seja mais o que puder manter conectado um sujeito “desligado”, nada, mas nada mesmo, substitui o que está quase em desuso hoje em dia: relacionamento interpessoal.

Estar “conectado” não é a mesma coisa que estar “ligado”, até porque conexões por fibra ótica, conexões sem fio, fios de cobre, ondas de rádio etc. podem ser rompidos a qualquer momento, basta estar “off-line” (ou com o celular convenientemente desligado), enquanto que estar “ligado” sugere algum tipo de vinculo que resulte num sentido de permanência.

Gosto de falar. Gosto do olho no olho, de estar no meio das pessoas, de interagir com elas; gosto de ver gente, trocar ideias, fatos engraçados, causos de infância e juventude, informações sobre notícias que li; paisagens que admirei; o que sonhei na noite passada, o que gosto de comer, de beber, de ler, de assistir; enfim, de viver! E gosto de saber tudo a respeito delas também, de rir ou chorar com elas, de sentir-me próxima e não apenas “conectada”. O que gosto de compartilhar com meus amigos não pode ser transmitido através de links e URLs, pois são dados pessoais demais, necessitam de um corpo inteiro, de coração, de cérebro, de sinapses e não de circuitos lógicos elétricos. Um computador precisa de várias peças para funcionar. Num corpo, o processamento e a memória são feitos pelos mesmos componentes no cérebro.

Todavia, tenho observado que já não há mais espaço para esse tipo de comunicação. As palavras estão cada vez mais reduzidas a mensagens no celular e na língua do “k” e do “x” (detestável língua internética que mais parece grunhidos): “Ke ki tu axa de sairmos hj”? MSN já não serve para mais nada. Depois de algum tempo e de mensagens sem sentido algum, bloqueia-se ou exclui-se pessoas com uma facilidade impressionante (antes que se comece a detestá-las). E os e-mails? O fim dos e-mails já foi decretado, pois ninguém mais se dá o trabalho de respondê-los, salvo poucas exceções, quando referir-se a trabalho.

Em relação às notícias que chegam aos borbotões diariamente através de sites, blogs, Twitter, Facebook etc, uma coisa é certa: todo mundo está por dentro de tudo o que ocorre no mundo, e ninguém tem a mínima ideia. A velocidade com que as notícias são repassadas não permite que as pessoas tenham tempo para pensar, refletir, comentar a respeito com amigos ou familiares e nem observar o impacto que elas causam. É um conhecimento superficial, um saber solitário e de pouco conteúdo. Já comentei com amigos o fato das notícias disseminadas via Internet serem voltadas a um leitor só, aquele que, após ter suas engenhocas de interação devidamente acionadas, veste seu “traje pressurizado” à prova de encontros e de convívio e não compartilha nem mais o terreno doméstico comum com seus familiares. É como se os membros da família vivessem separadamente lado a lado (ainda vou lembrar o título do filme francês que assisti em 2004 e que abordou esse assunto).

Não sou contra NTICs (sem a tecnologia eu não poderia estar digitando estas palavras e nem as postando num blog). Reconheço a importância desses mecanismos que propiciam facilidades de comunicação rápida e objetiva, até porque as engenhocas de interação não são as culpadas das pessoas estarem se transformando em seres robotizados e fazendo com que se afastem cada vez mais do convívio humano, mantendo afetividades simuladas, amizades fugazes e com prazo de validade restrita a poucos encontros. Culpadas são as pessoas que não sabem manter o equilíbrio necessário entre conectar-se e desconectar-se, perdendo o foco do que é essencial para o desenvolvimento humano.

A modernidade sempre vencerá a tradição, e isso é irrefutável. Só que se transformará numa vitória de Pirro caso a real afetividade – que aproxima, motiva e une – continue perdendo espaço para a proximidade virtual – fugaz, efêmera e desagregadora. Ganha-se de um lado, perde-se de outro. As “relações eletrônicas”, em qualquer âmbito da rede de alcance mundial (web), vêm rapidamente na mesma proporção que os amigos de carne, osso e alma se vão.

Obs.: Grata pelos amigos de carne, osso e alma que tenho. Nenhuma tecla de “deletar” pode apagar o que vivenciamos no dia a dia. Nenhum computador do mundo pode atender a um telefonema e perguntar: “Como foi o teu dia?” ou dizer: “Quem foi o FDP que fez isso contigo?”. Se mãos servem para digitar e ocupar-se com tantas outras coisas mais, é a língua que tem o poder de motivar e consolar. E ninguém pode parecer tolo ou ultrapassado por isso, a não ser para quem não entende de coisas reais.

terça-feira, 3 de maio de 2011

A Lógica do Amor

Eu já disse que o amor não tem lógica alguma. Só Deus sabe o porquê das pessoas fazerem certas escolhas, nem sempre as mais acertadas. Sabe-se lá que traumas carregam dentro de si. Aquelas que acertam e dizem ter encontrado a tal da alma gêmea consideram a posição dos astros. Deram certo porque o signo solar de uma combinava com o ascendente da outra, bem como a Vênus de um estava para o Marte do outro e ambos possuíam o Nodo Norte na mesma posição, ou seja, em Áries e por aí vai. Os mais espiritualizados dizem que se tratou, óbvio, de um processo de reencarnação bem sucedido, pois ambos tinham sido inimigos em vidas passadas e vieram a este mundo para, finalmente, se suportarem sem matar um ao outro, como ocorreu lá em 1230 a.C e blá, blá, blá...

Nada disso. Alguém, para me contrariar, enviou-me um e-mail esclarecedor. Nem signos, nem traumas, nem vidas passadas. Um relacionamento dá certo quando dois “Storge” se encontram, não sem antes terem sofrido nas mãos de "Ludos" incorrigíveis. Não entenderam? Eis o conteúdo, com algumas adaptações feitas por mim:

A LÓGICA DO AMOR

EROS

É a paixão mais comum e a mais desejada. Envolve atração física e desejo sexual já no primeiro encontro. É como se a flecha do Cupido tivesse nos acertado. Pensamos naquela pessoa assim que acordamos e nela pensamos antes de dormir. E a espera pelo ditoso telefonema torna-se sufocante.  Penso que é um amor fundamentado, inicialmente, na aparência física. Estudos indicam que este tipo de amor relaciona-se com a dopamina, que é um neurotransmissor responsável pela sensação de prazer e de motivação. E quando termina? Quando se tem a certeza que não se é correspondido. Dura exatamente o tempo em que percebemos que a aquela pessoa, a “perfeita encarnação da Beleza, Virtude, Sabedoria e Graça” dos poetas, não é exatamente o que pensamos.  Será adoração do ser amado ou autoadoração? Neste caso, ama-se o sentimento inspirado e não a pessoa que o inspirou.





“Ele pode ver a cara dela na face da lua, o amor arde como a primeira vez em que se beijaram, e a chama dela é a única razão pela qual ainda consegue extrair a respiração...” (O Paciente Inglês)




 
ÀGAPE

Significa altruísmo e generosidade, em grego.  Neste caso, o que importa é a satisfação do outro. A pessoa se entrega totalmente e anula-se para satisfazer às aspirações do outro. Ama incondicionalmente, não se preocupa se está sendo amada ou não.  É capaz até de renunciar ao ser amado, caso sinta que não o está fazendo feliz. Entrega-o de mão-beijada para outra pessoa mais apta a dar-lhe felicidade. Penso ser o que leva muitas esposas a aceitarem o fato de seus maridos possuírem amantes ou vice-versa. Talvez seja o caso até dos amantes que aceitam uma vida obscura em prol da necessidade das migalhas de afeto.




  
“Por amor, ela suporta a infidelidade do namorado”.

“Um sobre o outro, eles cavalgavam juntos. Iam juntos em direção às distâncias desejadas. Atordoavam-se numa traição que os libertava. Franz cavalgava Sabrina e traía sua mulher. Sabrina cavalgava Franz e traía Franz.”





MANIA

É o estilo “montanha-russa”. Num dia, o paraíso; no outro, o inferno. É uma paixão obsessiva e ciumenta. É como dormir com o inimigo. Um sempre achando que o outro não ama o necessário e o outro querendo a todo custo chamar a atenção. O medo do abandono é tanto, que uma das partes prefere terminar a relação para não ter de enfrentar o que premedita. Mas acaba sempre retornando. É como se fosse um vício, uma dependência da qual não consegue fugir.
Este tipo de relação está relacionado com a serotonina, um neurotransmissor responsável pela comunicação entre os neurônios.  Quando em níveis baixos, pode ocorrer patologias como: ansiedade, depressão, obesidade, enxaqueca e esquizofrenia. É o tipo de amor preferido pelas pessoas que possuem autoestima baixa. Muitas acabam assassinadas.
É o tipo de amor “entre tapas e beijos”.




Otelo para Desdêmona:

“Beijei-te antes de te matar. Nenhuma outra saída era possível, mas esta: matando-me morro depois de te beijar”.

LUDOS

Em Ludos, o amor é apenas um jogo e limita-se, na maioria das vezes, a uma única noite. Zygmunt Bauman chama a este tipo de relação como sendo “noite avulsa de amor”.  O desafio de conquistar é mais sedutor que a pessoa que se deseja seduzir. Roubar a namorada de um rival, por exemplo, é uma grande conquista. Depois de obtido o “troféu”, parte-se para outro desafio. Geralmente, pessoas assim possuem traumas em relação a compromissos. São as maiores candidatas a buscar auxilio junto a psiquiatras para suas neuras, pois mesmo quando estão bem numa relação duradoura, buscam encontros fugazes. São eternos insatisfeitos, não com os outros, mas consigo mesmos. Outro caso seria a da pessoa casada que busca um amante para reafirmar seu poder de sedução.


Visconde de Valmont em missiva à duquesa de Merteuil: 

“Sinto muito bem que a escolha vos embaraça, e que preferíeis tergiversar; e não ignora que nunca apreciastes ser colocada assim entre o sim e o não; mas deveis assentir, também, que não posso deixar-vos sair desse círculo estreito sem me arriscar a ser ludibriado; e deveis ter previsto que não o suportaria. Cabe-vos decidir agora; posso deixar-vos a escolha, mas não ficar na incerteza”.
“Acrescento, pois, que o menor obstáculo de vossa parte será tomado da minha por uma verdadeira guerra. Vedes, assim, que a resposta que vos peço não exige nem longas nem belas frases. Duas palavras bastam”.

Resposta da duquesa de Merteuil:

“Pois bem, a guerra!”



STORGE

Storge é o nome da divindade grega que simboliza a amizade. Aqui não impera a atração física e nem noites tórridas de amor num primeiro plano. O que importa é a confiança mútua e os valores compartilhados. Apesar de ser um tipo de amor romântico, é diferente do Eros, que exige paixão à flor da pele. É uma relação baseada na similaridade, sem grandes arroubos afetivos, apenas aceitação.
Tenho a impressão que os casamentos de uma vida inteira são os desse tipo e que, quando morre uma das partes, a outra morre em seguida, por não suportar a perda do cúmplice e amigo.
Amores Storge são duradouros. Geralmente surge repentinamente entre um casal de amigos, pelos gostos afins e de se “estar no mesmo barco”.



De Bonnie para Clyde (março de 1930)

“Estou só e triste, te quero mais que minha própria vida. Se você ficar mais tempo preso me tornarei tão louca quanto uma rata de manicômio”.

De Clyde para Bonnie (sem data):

“Minha linda e doce esposa, também me sinto terrivelmente triste e só. Como vai o trabalho? Algum bêbado passou dos limites com você? Se acontecer anote seus nomes, porque eu não vou passar toda a minha vida nesse casebre”.




No final do filme, antes do fim trágico de ambos, o casal troca olhares cúmplices, tacitamente satisfeitos por terem chegado ao fim juntos.


PRAGMA

Este é o amor dos materialistas e dos egoístas. É o tipo de paixão dos pragmáticos, ou seja, daqueles que somente priorizam o lado prático das coisas, que usam o raciocínio lógico para programar, premeditar, calcular tudo nos mínimos detalhes. Pessoas assim avaliam tudo antes de embarcarem num relacionamento, desde a conta bancária dos pretendentes, os bens que possuem e até se valerão a perda de tempo e dinheiro que for dispendido. Se há possibilidade de investir, tudo bem. Se não, caem fora. Não gostam de compartilhar e cultivam uma lista de pré-requisitos para o futuro parceiro (a). Se eu me casar, será que gastarei muito? Se eu me separar, será que perderei meus bens? Como estarei daqui a cinco anos? É claro que terminam sozinhas. Nunca ninguém conseguirá preencher todos os requisitos para ser um bom marido ou boa esposa.

Lizzie: “Eu me pergunto quem descobriu o poder da poesia para espantar o amor”.

Mr. Darcy: “Achei que fosse o alimento do amor”.

Lizzie: “Do amor belo e vigoroso, mas se é apenas uma vaga inclinação, um pobre soneto o liquidará”.

Mr. Darcy: “Então, o que recomenda para despertar a afeição?”

Lizzie: “Dançar, mesmo que o par seja apenas tolerável”.


É...até que tem certa lógica, mas eu resumiria tudo numa simples frase: Cada louco com sua mania de completude.
 

domingo, 1 de maio de 2011

Histórias do Cotidiano II – Não se brinca com quem está quieto

Uma das coisas que mais me dá prazer é estar na companhia de bons contadores de história. Todo contador de história sabe envolver os interlocutores com a narrativa emocionante de algum episódio ocorrido em sua vida, fazendo uso de interpretações gestuais e expressões faciais. Geralmente é algum fato engraçado ou insólito pelo qual tenha passado. Mesmo se dando mal no final, sabe como dar um toque tragicômico, rindo de si mesmo.

E a minha vida sempre foi plena deles, dos contadores de história. Cresci em meio a eles. É por isso que sempre gostei de pessoas que não levam a vida na ponta da faca, que não ficam se lamuriando e nem ressentidas à menor contrariedade, que conseguem comunicar emoção às palavras e não somente transmiti-las. Ainda não desenvolvi aptidões que me levem a tolerar maus humores matinais, amuos e sentimentos ambíguos – sou péssima em adivinhações e jogos emocionais. Tampouco tenho o poder de caminhar sobre “areia movediça” e fico enojada se tiver de pisar em “ovos”. É por isso que gosto de cercar-me de pessoas bem-humoradas e espirituosas, mesmo sabendo que um dia, seja por qualquer motivo, possam sentir-se tristes. Pessoas espirituosas sempre buscam as respostas que precisam dentro de si e jamais cedem ao infortúnio, fazendo “da queda um passo de dança e do medo uma escada”, conforme Fernando Sabino, em seu livro Encontro Marcado. Aliás, mudanças bruscas de humor e sem motivo algum causam em mim o mesmo efeito que mudanças repentinas do tempo: sempre sou pega de surpresa. Pessoas ressentidas costumam ser piores que essas mudanças climáticas: a ausência de trovoadas torna difícil calcular onde o raio vai cair.

Tenho vários amigos (as) que me fazem rir com suas histórias mirabolantes. Um deles é meu primo, Nilo. Ele conta tão bem suas histórias que elas parecem ter ocorrido no dia anterior. E uma delas é do tempo em que ele serviu no Exército, em 1964, como paraquedista.

Ele morava com doze gaúchos na Primeira Companhia de Fuzileiros Aeroterrestre, e era comum eles ficarem ouvindo, diariamente, gracinhas a respeito da masculinidade dos gaúchos por parte de dois paraquedistas cariocas. Numa noite, ele estava fazendo a barba; ao lado, o Luís, seu amigo, lavava uma camiseta, quando passaram por eles os dois gozadores. Naquele momento, um dos cariocas, galhofeiro, perguntou ao outro:

-“Aonde você vai, gaúcho”?

E o outro responde, também fazendo troça:

- “Gaúcho não! Eu sou é homem!”- e saíram gargalhando.

Nilo e Luís se olharam, sorriram um para o outro como que dizendo: “Que FDP!”, quando Luís deu a deixa:

- “Vamos dar um pau nesses caras”?

-“É pra já!” – prontamente respondeu meu primo.

Cessaram imediatamente o que estava fazendo e foram para o pátio do quartel. Os dois cariocas estavam voltando do refeitório.

- “São esses dois” – disse Nilo ao Luís.

Luís, que estava com a gandola (jaqueta de combate camuflada) no ombro, bateu com ela com toda força na cara de um deles. O carioca, tentando entender o que estava acontecendo, quando ia abrir a boca para reclamar da atitude do Luís, levou um soco violento. Saiu correndo, assustado.

Nilo, então, diz ao Luís:

- “Agora é a minha vez”.

Ele nunca foi violento. É cavalheiro demais para ser rude com quem quer que seja e não costuma agredir alguém sem um argumento. Interpelando o segundo carioca, educadamente perguntou-lhe:

- “Que negócio é esse de dizer que gaúcho não é homem?” “Quais os motivos que o levam a pensar dessa maneira?”

O carioca, tentando tirar o corpo fora depois de ter visto o que aconteceu com seu companheiro, respondeu:

- “Eu não disse nada, eu só brinquei”.

Luís, vendo que meu primo estava prestes a perdoar o gozador, disse:

- “Nilo, tu é mole demais!” – e sem mais delongas, também dá um soco violento e certeiro no outro carioca.

A partir daí, naquela Companhia, como por encanto, acabaram as brincadeiras de mau gosto com os gaúchos.

Obs.: Essa história faz parte do livro particular de memórias do Nilo e foi-me repassada com nomes, sobrenomes e nomes de guerra, até mesmo dos que apanharam. Só que omiti para evitar uma revanche futura. Causar tempestades fora de época decididamente também não é comigo.


Nilo, à direita na foto, com o futuro Sgt. Pereira, no dia do seu primeiro salto, em 27 de maio de 1964.