domingo, 13 de março de 2011

Que se cumpram todas as profecias

Em 13 de maio de 1917, em Fátima, Portugal, três crianças, Lúcia, Francisco e Jacinta, tiveram a visão e conversaram com Nossa Senhora, a qual lhes repassou três segredos: o primeiro, a visão do inferno e disse-lhes que os homens estavam se perdendo; o segundo; a punição pela guerra e os erros que a Rússia espalharia pelo mundo; e o terceiro, que foi revelado há pouco tempo pelo Vaticano, referia-se ao atentado ao Papa.
Por que um segredo tão simplório foi guardado por tanto tempo? E por que o Papa Paulo VI desmaiou quando o mesmo  lhe foi revelado, pela primeiro vez, em 1967? Impossível de acreditar. Para mim, trata-se de mais uma tentativa da Igreja Católica manter em segredo algo que pode abalar suas estruturas.
São muitas as suposições. Em uma delas, parte do terceiro segredo abalaria as crenças e os conceitos da Igreja Católica, pois trataria de um tema complexo: a prova da reencarnação, e, consequentemente, o fim do catolicismo e a ascensão do espiritismo. Na última aparição da Virgem, foi dito a Lúcia que Francisco morreria em seguida – o que ocorreu – e que ele voltaria reencarnado para cumprir o último ato da profecia. Como todos já devem saber, a igreja não aceita a tese da reencarnação.  Ou as pessoas vão para o céu, ou vão para o inferno, mas jamais retornam.
No dia 13 de abril de 1989, num lugarejo italiano chamado Porto de São Elpídio, a Virgem se apresentou a Giorgio Bongiovanni e disse-lhe que, em outra vida, foi um dos três pastores que ela visitou em 1917. Ela lhe contou aquela que seria a terceira profecia e pediu-lhe que fosse procurar a irmã Lúcia, tendo, como prova de sua reencarnação, o teor do que seria o último segredo.
Desta forma, Giorgio se apresentou à irmã Lúcia no dia 25 de agosto de 1989, revelando conhecer todo o teor da terceira mensagem de Fátima. E, no dia 02 de setembro de 1989, no mesmo lugar onde a Virgem foi vista pela primeira vez, Giorgio revelou ao mundo o terceiro segredo, que seria uma catástrofe de proporções gigantescas, entre o final do primeiro milênio e o início do segundo, em punição ao fato dos homens não cederem às advertências da Virgem e seguirem o contrário do que foi preceituado: “fogo e fumaça cairão dos céus e as águas dos oceanos se tornarão vapor e a espuma subirá afundando tudo. Milhões e milhões de homens perecerão a cada hora e aqueles que ficarem com vida invejarão os mortos. Por qualquer parte por onde se olhe, haverá angústias, misérias, ruínas em todos os países”.
Além da profecia de Fátima, que prediz um castigo que tirará nações inteiras do mapa, há outros.
A dos Maias, por exemplo.
Diz a profecia que a devastação dos recursos naturais do planeta pelo homem, a contaminação pelos dejetos dos lixos industriais e dos nossos, ocasionariam mudanças climáticas de tal forma, que geleiras derreteriam pelo aumento da temperatura (esse fator também é devido à mudança do eixo de rotação do planeta), grandes inundações se sucederiam, terremotos, maremotos, avalanches, tsunamis e erupções vulcânicas seriam uma constante; enfim, seriam geradas grandes situações de destruição, morte e sofrimento.
Para os Maias, o sol (Kinich-Ahau) é um ser vivo que respira e que a cada certo tempo se sincroniza com o enorme organismo que existe. Ao receber uma manifestação de luz do centro da galáxia, brilha mais intensamente, produzindo em sua superfície o que nossos cientistas chamam de erupções solares e mudanças magnéticas.
Pela profecia, tal fenômeno ocorre a cada 5.125 anos. E o fatídico dia seria no dia 22 de dezembro de 2012 (dia do meu aniversário, por sinal). Neste dia, o sol, ao receber um forte raio sincronizador proveniente do centro da galáxia, mudará sua polaridade e produzirá uma gigantesca labareda radiante, que destruirá civilizações e cidades inteiras.
Tanto a profecia de Fátima quanto a dos Maias, finalizam da mesma maneira, ou seja, neste dia em que civilizações e cidades serão destruídas, haverá uma nova evolução de consciência por parte dos seres humanos sobreviventes, os quais finalmente entenderão o funcionamento do Universo e poderão avançar a níveis superiores, deixando para trás o materialismo e o sofrimento e que, depois do caos e da escuridão, haverá uma era de florescimento jamais vista.
Eu acrescento: nenhuma mãe jogará mais seus filhos em lixeiras e nem pais os jogarão pelas janelas. Não haverá mais sacrifícios humanos, guerras estúpidas pelo poder, violência, assassinatos, crianças arrastadas por carros, drogas, devastação da natureza etc.
Se para conhecer a paz é preciso chegar bem próximo do fim do mundo, então que se cumpram todas as profecias, uma vez que nenhum processo de conscientização está funcionando.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O dia em que substituí meu cabeleireiro

Há anos cortava o cabelo com o mesmo cabeleireiro e fazia mãos e pés com a mesma manicure. Era assídua naquele salão. Pelo menos, uma vez por semana marcava minha hora e comparecia antes do horário marcado. Todavia, nos últimos meses notei certos descasos por parte deles. Por eu ser tão fiel, assídua, pontual e ser cliente antiga, já se davam o direito de atrasar o serviço (sempre lanchavam no meu horário ou, certos que eu não iria me importar por ser tão dependente deles, incluíam alguma cliente nova no meu horário e eu tinha de esperar). Enfim, com o passar dos anos, certos de me terem cativa, conquistada, já não se importavam mais em caprichar no atendimento. A rotina de me verem toda a semana e a repetição dos movimentos fez com que eles ficassem automatizados, transformando o serviço regular em acomodação. E a acomodação, em mau atendimento.  E a manutenção, quando não realizada de maneira conveniente, abre espaço para a concorrência.
E foi o que se sucedeu.
Ao voltar do feriadão de Carnaval, e propensa à renovação em todas as áreas da minha vida, inclusive em relação a pessoas, dei meu grito de liberdade e fiz o que achei correto: troquei de salão, de cabeleireiro e de manicure. Como cliente nova em outro salão, escolhido aleatoriamente, tive um atendimento espetacular. O corte ficou maravilhoso, as mãos e os pés perfeitos, porque eles tinham de dar o máximo para me agradar, para me conquistar, prender-me a uma rotina gratificante, tornar-me assídua e garantir meus reais semanalmente. E assim será durante vários dias, meses ou anos, até que também sejam substituídos, se também se transformarem em péssimos profissionais.
Sei que a rotina é essencial para a vida e pode ser a mola propulsora para grandes acontecimentos e mudanças de comportamento, mas pode se tornar perturbadora quando ocasiona certos dissabores e insatisfações.
Neste caso, há duas saídas: ou as pessoas se acomodam na mesmice dos atos e procedimentos por força do hábito, construindo barreiras que as impedem de criar momentos novos e restauradores para uma efetiva transformação na vida delas e na dos outros - e, por isso mesmo, correndo o risco de viver numa farsa enquanto sonham com o que poderia ser -, ou veem na rotina uma oportunidade de fazer algo diferente na construção da formação e da dignidade das pessoas, uma aprendizagem mais humana com seus semelhantes.
Não sou contra a rotina. Aliás, a rotina não existe se pensarmos mais filosoficamente (isso está se tornando um hábito na minha vida). O que existe são usos, práticas e normas gerais de procedimento que levam a caminhos percorridos e conhecidos – conforme a maioria dos dicionários –, e cada um atua conforme a criatividade, habilidade e originalidade com que encara o constante desafio que é renovar-se.
Portanto, rotina é algo que depende das pessoas, e não do tipo de vida que se leva. Como a rotina só existe para quem dá vida a ela, não pode ser a culpada por delimitar as pessoas. As pessoas é que se limitam nas ações rotineiras. Ao pôr a culpa de seus fracassos na rotina, vivem resmungando, queixando-se da vida que levam e, muitas vezes sentindo-se impedidas de viver com liberdade, cometem atos precipitados por não saberem como manter o que conquistaram ao longo do caminho.
Conforme Don Helder Câmara, “feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo”, mas as mudanças sempre devem ser de dentro para fora e não o contrário.
Até os atos mais simples, como trocar um salão de beleza por outro, podem ser mudados, desde que nos conduzamos com nobreza de caráter, espontaneidade e franqueza.
Se as pessoas não mudam, mudamos nós – já dizia o velho ditado.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Jacques Lacan e o Cisne Negro


Assisti ao filme Cisne Negro e não considerei um drama. Para mim, trata-se de um suspense psicológico, e somente pessoas que conhecem um pouco do mecanismo da fantasia que toma conta de um neurótico e sua realidade psíquica poderão entender o enredo e o problema da personagem, Nina, magnificamente interpretada pela atriz Natalie Portman.
É um filme que Jacques Lacan teria aplaudido de pé, caso ainda vivesse (até eu senti vontade de fazer isso), pois é lacanismo puro do início ao fim. Penso até que a personagem Nina foi criada com base no “Caso Aimeé”.
Na história do movimento psicanalítico, chama-se lacanismo a uma corrente representada pelos diversos partidários de Jacques Lacan, sejam quais forem suas tendências.
Jacques Lacan foi um psicanalista francês (13/04/1901 – 09/09/1981), que exerceu grande influência sobre a psicanálise francesa dos anos 70 como intérprete da obra de Sigmund Freud. É dele o famoso contraste ao Cogito de Descartes: “Penso onde não sou; logo sou onde não penso”.
Nasceu na cidade de Paris, de uma família burguesa e católica. Formou-se em Medicina e especializou-se em Psiquiatria com a tese de doutorado A Psicose Paranoica em Suas Relações com a Personalidade (1932), sobre um caso de paranoia feminina, o qual intitulou de “Caso Aimeé”.
O “Caso Aimeé” é a história de uma funcionária dos Correios, Marguerite Anzieu, que é presa e logo internada no hospital Saint Anne após atacar uma importante atriz da época, Huguette Duflos, em 1931. Marguerite fracassa no ataque, ferindo apenas a mão da atriz, mas foi o suficiente para que seu caso interessasse ao jovem psiquiatra Lacan.

No estudo do caso, Lacan cria um novo conceito diagnóstico, o de “Paranoia de Autopunição”, a partir do fato de sua paciente ter se curado após o ato de agressão contra Huguette, e mostra que, na verdade, ao atacar a atriz, Aimeé estava atacando a si mesma, ao seu ideal de “Eu”. A tese marcou a passagem da Psiquiatria à Psicanálise.
Lacan mostrou que o inconsciente se estrutura como a linguagem. A verdade sempre teve a mesma estrutura de uma ficção, em que aquilo que aparece sob a forma de sonho ou devaneio é, por vezes, a verdade oculta sobre cuja repressão está a realidade social. Considerava que o desejo de um sonho não é desculpar o sonhador, mas o grande “Outro” do sonhador. O desejo é o desejo do “Outro”, e a realidade é apenas para aqueles que não podem suportar o sonho.
No caso da personagem Nina, a fantasia é construída e vivida na tentativa de mediar o encontro com o real. Esse real inominável da questão da mãe “devoradora” – Para Lacan há o desejo, literal, da mãe de possuir (comer, canibalizar) o seu filho como se fosse parte do seu corpo. Este desejo natural coloca o filho em uma situação de escolha definitiva: ou se torna independente pela falta da mãe se transferir para o filho - e se torna um “sujeito faltante”, ou é engolido pela “boca de jacaré” da mãe e se torna um “autista” ou um doente mental, fragmentado sem unidade, dependente da mãe. Quando a criança se torna uma psicótica, a figura materna não a reconheceu como ser humano e não aconteceu a alienação com separação.
No filme, Nina é reprimida e infantilizada por uma mãe frustrada que, ao mesmo tempo em que a motiva a crescer profissionalmente, trata-a como a “garota doce”, uma criança que dorme em um quarto em tons de rosa, abarrotado de bichos de pelúcia, sendo ninada todo o dia por uma caixinha de música onde gira uma perfeita e enrijecida bailarina de porcelana, imagem da própria Nina.
A utilização de espelhos também nos remete facilmente à outra teoria lacaniana. Nina sempre tem um espelho à sua frente e é ali que ela se confronta com a figura do “Outro”. O ódio pela mãe, por exemplo, é projetado, em todo momento, na figura da colega Lilly. O espetáculo exige uma bailarina que possa interpretar o Cisne Branco com inocência e graça, e o Cisne Negro, com perfídia e sensualidade. Nina se adequa ao papel do Cisne Branco perfeitamente; porém, ela tem concorrência: Lilly é a personificação do Cisne Negro, uma mulher atraente e sem culpas. Nina enxerga nela o seu duplo, a sua outra parte. E sente ódio, pois seu superego a pressiona para não entrar em contato com aquele lado obscuro. Todavia, dentro do conflito de seu sistema psíquico, ao mesmo tempo sente inveja e admiração por Lilly.
A partir daí Nina vai ao encontro de si própria para interpretar o papel de Cisne Negro, e começa então uma série de conflitos internos, que passam por alucinações, sintomas de automutilação, ensaios até as últimas consequências de sofrimento corporal e esquizofrenia, chegando ao ponto do espectador não saber o que é real ou não.
Portman dá um show em sua interpretação, o que justificou seu Oscar. É incrível como ela consegue interpretar de forma tão intensa e realística a bailarina Nina. Outro lado psicológico do filme muito bem trabalhado é a busca do “Eu” interior. E novamente somos remetidos à teoria de Jacques Lacan, “O Estádio do Espelho”, em que ele fala exatamente dessa busca do “Eu”.  Nina precisa encontrar a sua sexualidade para chegar o Cisne Negro, mas, para que isso aconteça, é preciso romper, agressivamente, o “contrato” com a mãe, no qual ela tem seu lugar demandado pelo desejo materno.

À medida que as duas jovens bailarinas transformam sua rivalidade em uma amizade conflituosa, Nina começa a ter mais contato com seu lado sombrio, com uma inconsequência que ameaça destrui-la, pois, reconhecendo em si mesma os traços de agressividade e sexualidade (isso aconteceu após sua relação com o chefe da companhia de ballet), e não podendo assumir esses traços (tão necessários ao Cisne Negro), projeta-os para fora, montando em Lilly o seu negativo. Aí é que começam as alucinações onde ambas as personagens se confundem e através das quais Nina consegue exercer sua sexualidade, isto é, através de outra mulher – Para Lacan, não há relação sexual porque a relação não se faz senão com uma imagem, um corpo cujas “demandas” são pervertidas pela exigência de um objeto sem fundamento. A Teoria da Castração, de Freud, explica melhor esse fenômeno.
Pelas razões acima é que, ainda impossibilitada de elaborar o seu “Cisne Negro”, Nina acaba fazendo de Lilly uma ameaça a ser eliminada (ou eu, ou ela) – Lacan cita um relato da escolha que mostra essa situação, de uma ameaça de um ladrão onde ele pergunta: “Ou a bolsa, ou a vida”. Na verdade, não seria uma pergunta, seria uma escolha lógica e única: “Você perde a bolsa e ganha a vida” ou “Perde a bolsa e perde a vida”.

Em relação ao filme, Nina tem que acabar com o outro ameaçador, e como o outro é ela mesma projetada em Lilly, só pode destruí-lo destruindo a si mesma, mutilando seu corpo como ato final e desesperado de libertação da servidão materna.
“Foi perfeito” – ela disse, antes de sucumbir. Uma vez atingido exatamente aquilo que buscou a perfeição completa, e se deu conta disso, só lhe restou um caminho: a morte, o fim, porque até mesmo na perfeição do desejo realizado o paranoico é um insatisfeito.
Sem dúvida alguma, achei o filme visceral, estupendo, altamente psicológico, pois me fez ir além de uma tela. Desde o início captei traços de lacanismo no enredo que se descortinava à minha frente e certa semelhança com o “Caso de Aimeé” (sou admiradora da obra de Lacan). Não podia simplesmente afirmar ser um excelente filme: era preciso penetrar na mente de Nina, conhecer as suas motivações, o porquê de seus conflitos para poder entender como se instala uma paranoia na vida de uma pessoa. E tendo em vista a grande repercussão do filme, tenho certeza que muitos se identificaram em algumas partes; afinal, conforme o grande psicanalista Jacques Lacan disse: desde bebês podemos escolher ser um “sujeito faltante” ou um “sujeito neurótico normal”. Aliás, este último perfaz a grande maioria.
Cisne Negro se sustenta bem do início ao fim e merece ser visto. Sem sombra de dúvida, é um dos melhores filmes dos últimos anos. Não sei como não ganhou o Oscar.
Sugestão de livros para quem deseja entender um pouco dos fundamentos de Lacan:
Jacques Lacan - O Seminário IV, A Relação de Objeto – Jorge Zahar Editor, RJ-1995;
Joel Dor - Introdução à Leitura de Lacan, O Inconsciente Estruturado como Linguagem, Artmed Editora, RS-1989.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Moacyr Scliar, uma vida entre a Literatura e a Medicina

O escritor Moacyr Scliar morreu na madrugada deste domingo (27.02.2011), aos 73 anos, no Hospital de Clínicas, em Porto Alegre. A causa da morte foi falência múltipla dos órgãos. O corpo deve ser velado na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

O autor foi internado no começo de janeiro para uma cirurgia no intestino. Após o procedimento, ele sofreu um Acidente Vascular Cerebral (ACV).

Além de escritor, Scliar era médico especialista em saúde pública e professor universitário. Publicou mais de 70 livros, entre crônicas, contos, ensaios, romances e literatura infanto-juvenil. Em 2003, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Scliar publicou mais de setenta livros, entre crônicas, contos, ensaios, romances e literatura infanto-juvenil. O estilo leve e irônico lhe garantiu um público bastante amplo de leitores, e em 2003 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, tendo recebido antes uma grande quantidade de prêmios literários como o Jabuti (1988,1993 e  2009), o Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) (1989) e o Casa de Las Americas (1989).

Suas obras frequentemente abordam a imigração judaica no Brasil, mas também tratam de temas como o socialismo, a medicina (área de sua formação), a vida de classe média e vários outros assuntos. O autor já teve obras suas traduzidas para doze idiomas.

Em 2002, ele se envolveu em uma polêmica com o escritor canadense Yann Martel, cujo famoso romance A Vida de Pi, vencedor do prêmio Man B Booker, foi acusado de ser um plágio da sua novela Max e os Felinos. O escritor gaúcho, no entanto, diz que a mídia extrapolou ao tratar do caso, e que ele nunca teve o intuito de processar o escritor canadense.

Entre suas obras mais importantes estão os seus contos e os romances O Ciclo das Águas, A Estranha Nação de Rafael Mendes, O Exército de um Homem Só e O Centauro no Jardim, este último incluído na lista dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos, feita pelo National Yiddish Book Center nos Estados Unidos.





Moacyr Jaime Scliar
(Porto Alegre, 23 de março de 1937 – Porto Alegre, 27 de fevereiro de 2011)







quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Compromissofobia

Deus marinho da mitologia grega, Proteu era rei da ilha de Pharos, no Egito, onde foi construído o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Proteu tinha o dom da profecia e se metamorfoseava para escapar aos perseguidores ou a quem o buscava para saber os acontecimentos futuros. Se alguém conseguisse vencer o medo perante as formas horríveis e terríveis que assumia, ele revelava a verdade, como sucedeu com Menelau, o rei de Esparta, que queria saber se e como podia voltar à sua terra, após a guerra de Troia.
Deste mito é que surgiu o termo “proteiforme” para designar tudo o que muda de forma frequentemente.
Zygmunt Bauman chama os tempos atuais de “líquidos”, porque tudo muda rapidamente. Nada é feito para durar, para ser “sólido”. São tempos “proteiformes”, e por mais que tentemos negar, não há como fugir desta realidade: a vida se passa na companhia da incerteza. E não foi a vida que mudou: nós é que mudamos.
Mudamos tanto, que hoje não dizemos mais “para sempre”, pois a única certeza que podemos ter quando iniciamos algum tipo de relacionamento, é que pode acabar um dia. O mais certo seria repetirmos a célebre frase do general Júlio César, que exclamou “Alea Jacta Est” – a “sorte está lançada” - antes de atravessar o rio Rubicão e dar início à primeira guerra civil do mundo.
E por não confiarem tanto na sorte (talvez em si mesmos) ou por recearem o tipo de “guerra” que poderá ser desencadeada, é que muitas pessoas estão sofrendo de “compromissofobia”. Aliás, talvez este termo venha a figurar como a mais nova doença diagnosticada no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Problemas Mentais (DSM) e vir a tornar-se mais um motivo para psiquiatras receitarem “fornecedores de sensações temporárias de felicidade” àqueles que não conseguem manter um relacionamento duradouro.
O medo de assumir um compromisso amoroso faz com que cada vez mais as pessoas se assumam como seres solitários e optem por relacionamentos eventuais que não exijam rotina massacrante. É um meio termo entre manter-se sozinho, mas, ao mesmo tempo, sentir-se acompanhado.
A verdade é que as pessoas estão com medo. Medo da violência, medo de adoecer, medo de ser abandonadas à própria sorte, medo de empobrecer, medo de amar etc. Sabe-se lá que forma terrível a sensação de perigo poderá tomar quando metamorfosear-se em verdades que teremos de enfrentar.  O problema não é ter medo: o problema é como o enfrentamos.
Contra a violência, doenças e outras contingências, a medida possível é precaução a fim de minimizar a exposição de riscos. Mas em relação ao ato de amar não há como precaver-se. Quando este se apossa do nosso ser, é um risco de vida ou morte, sem que possamos evitar. Ninguém foge daquilo que mais quer. Só que é como assinar um cheque em branco. Um relacionamento tanto pode ser motivo de desconforto ou de sofrimentos inimagináveis ou de bem-aventurança. Como o Fausto de Christopher Marlowe: “Desejar que um momento de alegria permaneça o mesmo indefinidamente é uma forma segura de obter um compromisso por prazo indeterminado com o inferno em vez da felicidade”.
Todavia, muitas pessoas minimizam o risco de sofrer por amor preferindo compromissos lights, que são aqueles que reduzem seu tempo de duração para que ele seja o mesmo da satisfação que produzem: o compromisso é válido até que a satisfação desapareça ou caia abaixo de um padrão aceitável – e nem um instante mais. Digo isso porque me lembrei de um brinde feito por uma noiva ao noivo: “Brindo a mim e a ti. Serei fiel enquanto tu fores, nem um minuto a mais”.
E o que vejo por aí são inúmeras pessoas perseguindo a felicidade, desejando ardentemente causar um impacto na vida de outra pessoa, sentir-se necessárias, insubstituíveis, mas, ao mesmo tempo, temendo que um possível convívio signifique um compromisso do qual não poderão fugir. Tudo tem um preço, e o preço que a felicidade estabelece nem todos estão dispostos a pagar.
Pois amar é basicamente dar, não receber. Significa estar pronto a abandonar a preocupação consigo mesmo em favor do objeto amado, transformar sua própria felicidade num reflexo, um efeito colateral da felicidade desse objeto. E como se entregar a algo cujo destino pode terminar em frustração ou num investimento “a fundo perdido”?
Mas nem tudo é “proteiforme” por conveniência ou por medo. Há quem viva num estado de transformação permanente, tornando-se uma pessoa diferente daquela que tem sido até então, rompendo e removendo a forma que se tinha, tal como uma cobra que se livra de sua pele, para tornar-se um ser mais capacitado a lidar com as adversidades e com os medos. É uma destruição criativa de si mesmo, e desta destruição resultará a transformação de um ser que simplesmente deseja para um ser que ama, e que pagará o preço que for necessário para poder ser feliz. Afinal, nem tudo resulta em perdas e danos, mas também em bens que não se pode comprar: como reunir-se em torno de uma mesa com comida preparada em conjunto para ser compartilhada, ou ter uma pessoa que nos é importante ouvindo com atenção uma longa exposição de nossos pensamentos, esperanças e apreensões mais íntimas, e provas semelhantes de atenção, compromisso e carinho amorosos.
Não é nos prazeres frágeis e efêmeros que podemos encontrar a felicidade. Isso significa correr atrás dela, não chegar até ela. Para ter alguma certeza na vida é preciso haver um sentido de permanência e não de incerteza. E esse sentimento só pode vir de um sedimento do tempo, do tempo preenchido com certos cuidados – sendo estes o fio precioso com que se tecem as telas resplandecentes da ligação e do convívio.
Sim, podemos ser “proteiformes” a hora que desejarmos. Não é Deus nem a natureza, tampouco a sociedade que nos define, que nos dá forma, que nos molda por completo ou nossa conduta. Somos o que queremos ser, o que escolhemos ser, e sempre poderemos mudar o que somos diante das contingências a que estamos sujeitos.
Este post é dedicado a duas pessoas: à pessoa que me adjetivou de “proteiforme” e à pessoa que me mostrou, a duras penas, que valores morais não são limites para o que chamamos de liberdade.
E com tanta capacidade “proteiforme”, agora eu sei.
Eu sei que nunca se sabe.