sexta-feira, 26 de maio de 2017

Lava Jato e Trava Jato


A guerra do Brasil tem basicamente dois lados: a elite política e o povo. Atualmente, quase todas as instituições públicas, com maior ou menor fidelidade, prestam serviços à máfia que nos governa há três décadas. Uma das poucas forças institucionais que se identificam com os anseios da população e os valores da Pátria é a Operação Lava Jato. Mesmo ela, no entanto, foi dividida em dois setores antagônicos, tão diferentes quanto a água e o óleo.
Hoje temos duas Lava Jatos: a de Curitiba e a de Brasília. A de Sergio Moro e a do STF. A de Dallagnol e a de Janot. A que os filhos do Brasil gostam e a que os filhos da CUT gostam. Na verdade, as operações mereceriam dois nomes distintos: Lava Jato e Trava Jato.
A Lava Jato é apoiada pela população. A Trava Jato é apoiada pelos políticos. A Lava Jato prende figurões. A Trava Jato deixa os figurões em liberdade. A Lava Jato botou o maior empreiteiro do País na cadeia. A Trava Jato libera Joesley para passear em Nova York. A Lava Jato prende figuras de todas as tendências ideológicas (até o Cunha!). A Trava Jato prende só alguns, e solta rapidinho. A Lava Jato passa o Brasil a limpo. A Trava Jato de vez em quando acerta — como fez ao revelar as conversas sombrias de Temer e Aécio —, mas está longe de possuir a operacionalidade de sua coirmã curitibana.
Eu diria que a Trava Jato e a Lava Jato são tão diferentes entre si quanto Caim e Abel, Esaú e Jacó, Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Joio e trigo. Água e óleo. Brasília e Curitiba. O Estado e o povo brasileiro. O empresariado honesto e o empresariado que vive de sugar o dinheiro público.
Diante da fuga do réu da Trava Jato para curtir as delícias da Broadway e do Central Park, eu só tenho um sentimento: vergonha. Vergonha que é expressada nas palavras do jurista João Carlos Biagini: "No plano econômico, o grupo de Joesley há tempos estava prejudicando o mercado ao estabelecer, com a ajuda governamental, um monopólio nacional da carne, com a eliminação, através da compra com dinheiro do BNDES, de quase todos os concorrentes. E, agora, tomamos conhecimento de ter se tornado internacionalmente o maior operador no mercado da carne, portanto com o dinheiro dos contribuintes brasileiros". À vergonha de origem econômica, somou-se a vergonha moral da gravação feita nos porões do Jaburu, na calada da noite.
A última da Trava Jato foi provocar a demissão de um jornalista que, goste-se ou não dele, teve publicamente exposto o diálogo com uma fonte — no caso, a irmã de Aécio Neves —, numa clara tentativa de intimidação da imprensa. É como se as "otoridades" estivessem dizendo: "Aqui não, violão!".
Há uma luta de vida ou morte entre a Lava Jato e a Trava Jato. E dessa guerra depende a sobrevivência do País.

Artigo de Paulo Antônio Briguet, publicado originalmente em 26.05.2017  -(http://www.folhadelondrina.com.br)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O AMOR TEM UM LIMITE QUE SE CHAMA DIGNIDADE

O amor sempre terá um limite: a dignidade. Porque o respeito que cada um de nós temos por nós mesmos tem um preço muito alto e jamais irá aceitar cortes para saciar um amor que não é suficiente, que machuca e nos deixa vulneráveis.

Dizia Pablo Neruda que o amor é curto e o esquecimento é muito longo. Mas no entremeio sempre há aquela “luz de vagalume” que se acende de forma natural nas noites escuras para nos indicar onde é o limite, para nos lembrar que é melhor um esquecimento longo do que uma grande tormenta na qual acabamos vendendo a nossa dignidade.

“Às vezes o melhor remédio é esquecer o que se sente para recordar o que valemos. Porque a dignidade não deve ser perdida por ninguém, porque o amor não se roga nem se suplica, e embora nunca se deva perder um amor por orgulho, também não se deve perder a dignidade por amor”.

Acredite ou não, a dignidade é esse elo frágil e delicado que tantas vezes comprometemos, que pode romper e desfazer as ligações dos nossos relacionamentos amorosos. Há muitas ocasiões em que cruzamos essa fronteira sem querer até nos deixarmos levar por alguns extremos nos quais nossos limites morais tornam-se fracos, pensamos que por amor tudo vale a pena e que qualquer renúncia é pouca.

Porque o amor e a dignidade são duas correntes em um oceano convulso, no qual até mesmo o marinheiro mais experiente pode perder o rumo.
Muitas pessoas costumam dizer que o ego alimenta o orgulho e o espírito alimenta a dignidade. De qualquer forma, estas duas dimensões psicológicas são duas habitantes cotidianas das complexas ilhas de relacionamentos amorosos, que às vezes costumam ser confundidas.

O orgulho, por exemplo, é um inimigo bem conhecido que costuma ser associado ao amor próprio. No entanto, ele vai um passo além, pois o orgulho é um arquiteto especializado em levantar muros e cercas nos nossos relacionamentos, em decorar cada detalhe com arrogância e em encontrar o vitimismo em cada palavra. Apesar de todos estes atos destrutivos, o que realmente está mascarado é uma baixa autoestima.

Enquanto isso, a dignidade é justamente o contrário. Ela age o tempo todo a ouvir a voz do nosso “eu” para fortalecer o ser humano mais belo, o respeito por nós mesmos sem esquecer o respeito pelos outros. Aqui o conceito do amor próprio adquire o seu pleno significado, pois se alimenta dele para se proteger sem prejudicar os outros: sem causar efeitos “colaterais”, mas validando em todos os momentos a própria autoestima.

A dignidade não se vende, nem se perde nem se presenteia. Porque uma derrota a tempo sempre será mais digna do que uma vitória se conseguirmos sair “inteiros” dessa batalha, com o queixo erguido, o coração inteiro e uma tristeza que vai acabar renovando as esperanças.

“As pessoas costumam pensar que não há nada pior do que ser abandonado por alguém que amamos. Não é verdade, o mais destrutivo é se perder amando quem não nos ama”.

No amor saudável e digno não se encaixam martírios ou renúncias, aquelas em que dizemos que vale tudo só para estarmos ao lado do ser amado. Não adianta nos posicionamos à sua sombra, onde já não irão mais restar dias ensolarados para o nosso coração nem estímulos para as nossas esperanças.

Por isso, e para evitar cair nestas correntes emocionais convulsivas, vale a pena refletir sobre as seguintes questões, que sem dúvida podem nos ajudar:

1) Nos relacionamentos amorosos os sacrifícios têm limites. Não somos obrigados a responder a todos os problemas do nosso parceiro/a, a oferecer ar sempre que ele/a quiser respirar, nem a apagar a nossa luz para que a dele/a brilhe. Lembre-se de onde está o verdadeiro limite: na sua dignidade.

2) O  amor se sente, se toca e se cria todos os dias. Se não percebermos nada disto, pedir não vai adiantar nada, assim como não adianta esperarmos sentados que aconteça um milagre que não tem sentido. Assumir que já não somos amados é um ato de valentia que vai evitar que fiquemos à deriva em situações delicadas e destrutivas.

3) O amor jamais deverá ser cego. Por muito que se defenda esta ideia, é necessário lembrar que sempre será melhor se oferecer a alguém com os olhos bem abertos, o coração entusiasmado e com a dignidade muito alta. Só então seremos autênticos arquitetos destas relações dignas que valem a pena, onde pode-se respeitar e ser respeitado, criar todos os dias um ambiente saudável onde nem “tudo vale”, sem jogos de poder nem sacrifícios irracionais.

A dignidade é e será sempre o reconhecimento de que somos merecedores de coisas melhores, porque sempre será melhor uma solidão digna do que uma vida de carências, do que relacionamentos incompletos que nos fazem acreditar que somos atores secundários no teatro da nossa existência. Não permita isso, não perca a sua dignidade por ninguém.



(Fonte: Blog O Segredo - https://osegredo.com.br/2016/09/o-amor-tem-um-limite-que-se-chama-dignidade/)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Eu não sou assim – Texto de Martha Medeiros

Quando você estiver discutindo com o amor da sua vida, adotando um tom alto demais porque precisa que ele entenda o tamanho do desespero que está sentindo, quando você, aos gritos, começar a trazer à tona coisas que ele fez muito tempo atrás a fim de incluí-las na sua argumentação, quando só lhe restarem palavrões na boca, quando você sentir que está perdendo a razão e também a compostura, acalme-se e diga para si mesmo: “Eu não sou assim”.

Se você não é barraqueira e nunca foi deselegante, contenha-se. É triste ter que se afastar tanto de si mesmo a fim de manter alguém próximo. Deixe-o ir, então. Ele partirá de qualquer jeito. Fique em você mesma.

Quando você estiver dizendo coisas que não tem vontade de dizer, quando sentir que está assumindo um personagem apenas porque é isso que a sua plateia está exigindo, quando você não reconhecer a autenticidade da própria voz, cale-se e pense: “Eu não sou assim”. Certamente a pessoa que está com você não deseja você, apenas alguém que você é capaz de interpretar. Deixe-a partir, se ela não se satisfaz com sua naturalidade, e simplesmente mantenha-se em si.

Quando você for impelida a trair porque não está mais vivendo a vida que sonhou, quando for induzida a mentir para que a casa não caia, quando sentir-se obrigada a arranjar desculpas para disfarçar o próprio desejo, pergunte-se: sou assim? Ardilosa, falsa, camuflada? Se você não é assim, se nunca foi assim, melhor enfrentar a verdade, como fazem os corajosos.

Quando você estiver num local que não lhe agrada, conversando com pessoas que não admira, rindo forçadamente de piadas que lhe soam grosseiras, quando estiver prometendo visitas que sabe que não fará, submetendo-se a situações bizarras ou vexatórias, escute o que seu desconforto está alertando: “Eu não sou assim”. Muitas vezes, especialmente no início da idade adulta, temos que nos adequar a certas contingências sociais se delas depende nossa sobrevivência, mas se você já percorreu um bom caminho, construiu uma vida digna e conhece a si mesma melhor do que ninguém, não precisa se moldar a mais nada, conquistou o direito de ser integralmente quem é.

Quando você estiver sendo condescendente sem receber em troca o carinho que merece, quando você perceber-se desacomodada no que deveria ser aconchegante, quando sentir que está se adaptando com dificuldade ao que não lhe convém, tente perceber se está sendo educada ou se está sendo submissa – não são sinônimos. Educação é básico, mas não exige docilidade fingida nem servilismo humilhante. Pegue sua bolsa e tome o rumo de casa sempre que estiver escutando de si mesma: “Eu não sou assim”.

A não ser que você seja.







quarta-feira, 18 de março de 2015

O Raciocínio Petista – Por : David Coimbra


O raciocínio dos defensores do governo é o seguinte:

Quem é a favor da ditadura é contra o governo.
Logo, quem é contra o governo é a favor da ditadura.

Ou:

Quem gosta do Bolsonaro é contra o governo.
Logo, quem é contra o governo gosta do Bolsonaro.

Ou:

Quem quer o golpe militar é contra o governo.
Logo, quem é contra o governo quer o golpe militar.

Ou:

Os tucanos são contra o governo.
Logo, quem é contra o governo é tucano.

Ou, o mais dissimulado de todos:

A maioria dos ricos e brancos é contra o governo.
Logo, todos os pobres e negros são a favor do governo, porque o governo é bom para pobres e negros, e mau para brancos e ricos.

E um último, embora vago, quase impalpável:

Este governo, supostamente, é de esquerda.
Logo, quem é contra este governo é certamente de direita.

Há muitas pessoas reproduzindo esse tipo de raciocínio sofístico e vagabundo. Essas pessoas, quase todas, são dadas a sofismas, sim. Mas não são vagabundas. Ao contrário: vejo gente que estuda, que trabalha, que se esforça e que quer o bem do Brasil tecendo esse gênero baixo de argumentação. Entre essas pessoas, inúmeros jornalistas. Alguns jovens, outros já na veterania, muitos bons profissionais, outros nem tanto, 90% deles decentes.

Vejo políticos dignos apelando para essa tergiversação, vejo homens e mulheres de boa índole, suaves no trato pessoal, alguns até inteligentes e razoavelmente informados.

Em parte, compreendo que se comportem assim. Porque não querem sentir-se ao lado de quem gosta do Bolsonaro, é de direita, a favor de golpes militares e contra negros e pobres, mas também porque estão no fervor da discussão, estão em busca de argumentos para não ceder a quem os ofende e os chama de petralhas ou o que quer que seja.

Mas a verdade já comprovada é que houve roubo neste governo, e o fato de ter havido em outros, tempos atrás, não consola nem atenua. Quando o governo atual é criticado, o é por uma razão simples: porque é o atual governo.

E o roubo não foi casual. Foi roubo sistemático, encaixado nas engrenagens da administração, sedimentado na base dos partidos governistas, disseminado por todos os setores que aceitassem fazer composição. Isso está demonstrado pelas investigações. Está plasmado. Vergonhosamente plasmado.

Duvido que Dilma tenha participado dessa roubalheira. Mas duvido que não soubesse dela. É impossível que uma mulher experiente na administração pública, tendo sido presidente do Conselho de Administração da Petrobras, ministra das Minas e Energia e da Casa Civil, sendo "mãe do PAC" no governo Lula e duas vezes presidente da República, é impossível que ela não soubesse do que ocorria. Da mesma forma, é impensável crer que Lula, o principal líder do PT, não soubesse de nada.

Ainda não é possível provar que eles sabiam, mas centenas de milhões de dólaressujos estão aparecendo por toda parte, as investigações estão se agudizando e o cerco vem se fechando a cada dia. Em pouco tempo, talvez não haja mais sofisma que sustente a defesa deste governo.

Sim, é verdade: alguns querem que o governo caia porque são canalhas. Mas também é verdade que muitos que não são canalhas se comportam como se fossem, para manter o governo de pé.



domingo, 14 de dezembro de 2014

O que você faria por amor?

Autor: Ivan Martins

Muita gente gosta de afirmar, em voz alta, que faria “qualquer coisa” por amor. Vocês já devem ter ouvido isso. Talvez até tenham dito a frase novelesca. Faz parte da nossa cultura. Outro dia, vi um rapaz dizer em rede nacional de televisão, com a maior naturalidade, que “mataria e morreria” por amor. O autor do exagero devia ter uns 18 anos, talvez menos. Deu vontade de rir, de tanto drama. O jovem Romeu da Tijuca ainda não descobriu que a melhor forma de amor se pratica entre vivos – preferencialmente em liberdade, que não estão na cadeia, presos por assassinato.

Isso não quer dizer que o amor não faça exigências terríveis. Eu mesmo já fiz cafunés de madrugada, cocei costas e apliquei massagens nos pés até ficar com as mãos exaustas. Por amor. Já lavei pias repletas de louça, fiz comidas sofríveis, fui ao mercado no domingo, tirei dinheiro do banco às sete da manhã e levei o lixo para fora vezes sem conta. Por amor. Já viajei ao exterior, dirigi até a praia, dancei até de madrugada e cantei até ficar rouco. Por amor. Alguns dirão que me faço de vítima. A verdade é que, por amor, já tomei vinhos excelentes, já comi em restaurantes caros, já assisti a espetáculos inesquecíveis e já comprei presentes que, só de lembrar, me enchem de alegria – e de uma vaga melancolia financeira.

Se alguém disser que isso tudo é pouco, talvez tenha a cabeça tomada por grandezas. Ou ache, como o Romeu da Tijuca, que amar é coisa de matar ou morrer, verdadeira luta com facas. O grande amor, ao contrário, é feito de miudezas. São gestos cotidianos, olhares cúmplices, uma mão que passa pela nuca e toca os cabelos enquanto a mulher que você ama conversa com outra pessoa. Amor também é feito de desejo, e a cada tanto exige a reafirmação de uma suave encostada - na pia, enquanto ela coa o café – e da barriga que toca o calor da outra barriga.

Esses sinais mostram amor como a temperatura denuncia a febre. Mas não são tudo.

Há também a conversa que atravessa os dias e dá sentido aos fatos da existência. E a lealdade, que permite contar com o outro nas horas sombrias. Ela impede que a gente se sinta sozinho num mundo de multidões solitárias. Não se pode esquecer a sacanagem, claro, sem a qual o amor morre de tédio. E o riso, em cuja ausência a morte se aproxima. No amor, se dizem as palavras mais doces, se dão os abraços mais ternos, se enxugam as lágrimas mais tristes, se grita, se geme. Nele, a gente se comove como o diabo. Em nada disso há heroísmo. Apenas a vida, em seus milagres comuns.

A única real grandeza do amor está em sua imensa vocação de fazer o outro feliz. Um dia depois do outro. Isso exige atenção, desvelo mesmo, e coisas como imaginação, tirocínio, esforço. Às vezes até sacrifício. O outro é tão complexo – tão desgraçadamente parecido conosco – que, às vezes, não sabe o que deseja e o que precisa. Conta conosco para iluminá-lo. Há que estar lá, portanto. Há que tentar entender com o coração e com as mãos, que apertam, seguram, amparam e acariciam.


Se me perguntam o que eu faria por amor – já me perguntaram, de outras formas –, eu responderia, como os portugueses, imenso. Cada vez mais, na verdade. Com calma e determinação, juntos, sem grandiloquência. Assim se lida com as coisas essenciais da vida. O amor, entre todas elas.




terça-feira, 23 de setembro de 2014

Sequestradores de Votos e Eleitores Reféns – Autora: Carla Rojas Braga

Penso que há sintomas da síndrome de Estocolmo em uma grande parcela de eleitores, que se comportam, na hora de votar, como reféns.
Existem semelhanças, para mim, muito significativas, entre o eleitor, refém, e alguns políticos psicopatas-sequestradores de votos.
A saber:
A Síndrome de Estocolmo é um estado particular desenvolvido por pessoas que são vítimas de sequestro, no qual os reféns desenvolvem um relacionamento afetivo com seu captor. Algumas vezes, uma verdadeira cumplicidade, com os reféns ajudando seu captor a alcançar seus objetivos.
A Síndrome se desenvolve a partir de tentativas da vítima de se identificar com seu captor ou de conquistar sua simpatia.
Se manifesta da seguinte maneira: durante o processo, os reféns começam por identificarem-se emocionalmente com os sequestradores, como mecanismo de defesa, por medo de agressões.
Esse processo ocorre sem que a vitima tenha consciência.
A identificação com o sequestrador ocorre para propiciar um afastamento emocional da realidade perigosa e violenta à qual a pessoa está sendo submetida.
O sequestrador faz tamanho estrago na mente da vítima porque é um psicopata.
Infelizmente, podemos verificar sintomas parecidos com tal tipo de personalidade em alguns políticos.
Exibem com arrogância um forte sentimento de autovalorização, indiferença para com o bem estar dos outros e um estilo social continuamente fraudulento.
Existe neles sempre a expectativa de explorar os demais e há neles uma consciência social bastante deficiente, notória por uma inclinação para violação das regras.
A irresponsabilidade social se percebe através de fantasias expansivas e de contumazes e persistentes mentiras.
Sem princípios, mostram sempre um desejo de correr riscos, sem experimentar temor de enfrentar ameaças ou ações punitivas. Buscadores de novas sensações e narcisistas, funcionam como se não tivessem outro objetivo na vida, senão explorar os demais para obter benefícios pessoais.
São completamente carentes de sentimentos de culpa e de consciência social.
Normalmente sua relação com os demais dura tempo suficiente em que acredita ter algo a ganhar, como por exemplo, o período eleitoral.
Tem facilidade em influenciar pessoas, ora adotando um ar de inocentes, de frágeis, de vítimas, ou de líderes, sempre assumindo um papel mais indicado para a circunstância.
Carentes de qualquer sentimento de lealdade, normalmente ocultam suas verdadeiras intenções debaixo de uma aparência de amabilidade e cortesia.
Portanto, o eleitor fica uma presa fácil.
Certos políticos transformam seus eleitores em reféns.
O eleitor – refém é aquele que, em função da frustração decorrente das falcatruas, crimes e mentiras, fica tão fragilizado que é capaz de aliar-se ao candidato-sequestrador nas eleições.
Os sentimentos de frustração, decepção e revolta podem mascarar-se defensivamente e hipnoticamente como identificação idolatria, e levarem ao voto emocional, sem uso da razão.
Na hora de votar, a porta do cativeiro fica aberta, mas o eleitor-refém está tão atordoado que não sabe para onde correr.
O medo da mudança e da própria liberdade pode levar a um sentimento de desesperança e até de morte política, através do voto Kamikaze, suicida.
O país precisa que os eleitores tenham coragem de sair pela porta da frente do cativeiro, votando na sua liberdade.


*Carla Rojas Braga é psicóloga.





terça-feira, 9 de setembro de 2014

Intervenção ou Impeachment?

O petrolão rendeu aos corruptos mais de 4 bilhões de reais, tudo isso para que pudessem pagar aliados por apoio político e outras conveniências mais, talvez até ajudar a desenvolver países governados por comunistas.
É muito dinheiro, e deveria ter servido para melhorar a qualidade de vida dos brasileiros em relação à saúde, educação e segurança. Mas não, serviu somente para que parlamentares e "aderentes" ficassem milionários.
Muitos reis e rainhas perderem a coroa por terem agido desta forma no passado. Tributaram tanto o povo para que este pagasse pelos luxos da corte, que acabaram sendo destituídos ou perdendo a cabeça.
Mas não os "príncipes" do Brasil.
Estes continuam reinando, trazendo estrangeiros para o Brasil, gastando o dinheiro dos impostos com luxos, orgias e farras.
Todo administrador jamais esqueceu a máxima de Adam Smith, que a riqueza de uma nação se mede pela riqueza do povo e não pela riqueza dos príncipes.
Quando os príncipes ostentam riqueza enquanto o povo padece de muitas misérias, e quando o povo não tem força suficiente para lutar, é hora dos "barões" se reunirem e proporem uma nova constituinte. E caso não adiante, então que formem um exército e declarem guerra contra a realeza.
Aconteceu com João Sem Terra e com Henrique III, reis da Inglaterra.
Mas antes de qualquer intervenção militar deve haver o brado de "impeachment, já". Um impeachment adianta para que maus governantes renunciem ao poder.
Aconteceu com Fernando Collor de Mello, ex-presidente do Brasil.
Intervenção sim, mas somente para defender e tornar livre o povo que estiver perdendo a guerra contra a opressão. Jamais para dominar.



(A imagem não é de 1964, mas sim de 2014, durante o desfile do dia 07 de setembro, em Porto Alegre)



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O GOVERNO RICO JÁ NÃO VÊ O POVO POBRE


por Percival Puggina. Artigo publicado em 05.08.2014.


A cartilha manda repetir sempre as mesmas coisas, ainda que não resistam a uma acareação com os fatos, porque a repetição se impõe à razão e acaba sendo mais convincente do que eles. Não importa que o realejo cause lesão por esforço repetitivo. O resultado compensa.
Assim, ao longo dos anos, nossos ouvidos enrouqueceram de escutar que o país vivia sob um sistema econômico iníquo, que gerava aberrantes desníveis de renda e concentração de riqueza. Tão repetida cantoria acabou por convencer cautos e incautos de que somente uma guinada para a esquerda poderia nos conduzir ao éden da igualdade, da justiça e da prosperidade geral. Gradualmente, então, foi se abrindo a porta para o socialismo, apesar de os fatos, pela janela, berrarem que isso é uma loucura e que tal sistema não consegue apresentar um único caso de prosperidade e democracia. Têm razão os fatos: o anunciado socialismo, sempre, excetuadas suas elites, igualou a todos na pobreza, e só ao Estado concedeu liberdades. Mas isso quase ninguém diz e é nesse caminho que estamos sendo lenta e docilmente conduzidos.
O mais insólito nesse percurso é o próprio governo e seu partido, que se declaram socialistas, após 12 anos de gestão, terem que negar os fatos que os olhos mostram e insistirem em que a pobreza diminuiu. Agravou-se, assim, a situação de todos os que são pobres de fato. Eles deixaram de existir nas contas do governo.
O efeito da repetição é tão eficiente que o sujeito que escreve o que acabei de escrever passa a ser visto como um brutamontes destituído de sentimentos humanos. De nada vale dizer que não há concentração de renda maior do que aquela promovida por um aparelho estatal que fica com quase a metade de tudo que a nação produz. De nada vale denunciar esse Robin Hood burocrata que toma de quem tem (e de quem não tem) para dar ao insaciável governo. De nada vale informar que essa brutal, perversa e inútil concentração de renda nas mãos do Estado é típica do socialismo, avessa ao empreendedorismo e à economia de mercado. Com o tempo, só fará aumentar a pobreza do país.
Escrevo de teimoso, portanto: a persistência da pobreza que o governo se recusa a reconhecer têm como causa esse crescente avanço do Estado sobre a economia nacional. Não bastasse a robusta mordida de leão, o governo, no curto prazo, ainda toma dívidas em nome das gerações futuras. Mais ganancioso e perverso, só traficante.





terça-feira, 15 de julho de 2014

Seria cômico, se não fosse trágico – Autor: Carlos Bayma

Tudo começou com uma pequena tristeza, tratada eficientemente com o “antidepressivo” mais moderno do mercado.
Você está com 30 anos, tem uma depressãozinha, uma tristeza persistente. O seu médico diz que passa logo: prescreve Fluoxetina.
Mas a Fluoxetina dificulta seu sono. Ele então indica Clonazepam, o Rivotril da vida. O Clonazepam deixa meio bobo ao acordar e reduz sua memória. Assim, você volta ao doutor. Ele te olha e nota que você aumentou de peso. Preescreve Sibutramina, que faz você  perder uns quilinhos, mas lhe dá uma taquicardia incômoda. Novo retorno ao doutor. Além da taquicardia, a “batedeira” no coração, ele nota que você também está com pressão alta. Então, te dá uma receita  de Losartana e Atenolol, este último para reduzir a sua taquicardia.
O tempo passa, você já está com 35 anos e toma Fluoxetina, Clonazepam, Sibutramina, Losartana e Atenolol. Mas, como a idade chega, é adequado um “polivitamínico”. O doutor manda que você compre  um ‘polivitamínico de A a Z”, que pra muito pouca coisa serve. Mas, como o Luciano Huck disse na TV que esse é ótimo e você acreditou, comprou.
Já são R$ 350,00 por mês, começa a pesar no orçamento. O dinheiro a ser gasto em investimentos e lazer escorrer para o ralo da indústria farmacêutica.
Você começa a  ficar nervoso, preocupado e ansioso (apesar da Fluoxetina e do Clonazepam), pois as contas não batem no fim do mês. Começa a sentir dor no estômago e azia e seu intestino fica “preso”. Vai a outro doutor. Prescrição: “omeprazol + domperidona +  laxante ‘natural’, e você vai ficar ótimo!”.
Os sintomas realmente somem, mas só os sintomas, apesar da “escangalhação” que virou sua flora intestinal. Assim, outras queixas aparecem. Dentre elas, uma é particularmente perturbadora: aos 37 anos, apenas, você não tem mais aquela potência sexual. Além de estar “brochando” com freqüência, tem pouquíssimo esperma e a libido está abaixo dos pés.
Para o doutor da medicina da doença, isso não é problema.  Você escolhe o remédio que solucionará a questão: Sildanafil, Tadalafil, Lodenafil ou Vardenafil. Escolha por pim-pam-pum. E sua potência melhora, mas, como consequência,  surge uma tremenda dor de cabeça, mais palpitação, vermelhidão e coriza. OK, sem problemas, basta aumentar a dose do Atenolol e tomar Neosaldina antes do sexo.  Se você precisar, instile um “remedinho” para seu corrimento nasal, ele sobrecarrega seu coração, mas seu nariz fica uma beleza!
Quando tudo parecia solucionado, aos 40 anos, você percebe que seus dentes estão apodrecendo e caindo. (Entre nós, é o antidepressivo). E tome grana para gastar com o dentista. Nessa mesma época, outra constatação: sua memória está falhando bem mais que o habitual. Mais uma vez, para seu doutor, isso não é problema: Ginkgo Biloba é prescrito.
Nos exames de rotina, sua glicose está em 110 e seu colesterol em 220. Nas costas da folha do receituário, o doutor prescreve Metformina + Sinvastatina. “É para evitar diabetes e infarto”, tranquiliza o cuidador de sua saúde (?!).
Aos 40 e poucos anos, você já toma Fluoxetina, Clonazapam, Losartana, Atenolol, Polivitamínico de A a Z, Omeprazol, Domperidona, laxante “natural”, Sildenafil, Vardenafil, Lodenafil ou Tadalafil, Neosaldina, Ginkgo Biloba, Metformina e Sinvatatina. (Convenhamos, isto está muito longe de ser saudável!). Mil reais por mês! E sem saúde!!!
Entretanto, você ainda continua deprimido, cansado e engordando. Você vai ao doutor, de novo. Troca a Fluoxetina por Duloxetina, um antidepressivo “mais moderno”. Após dois meses, você se sente melhor. (ou um pouco ‘menos ruim”). Porém, outro contratempo surge: o novo antidepressivo o faz urinar demoradamente e com jato fraco. Passa a ser necessário levantar duas vezes à noite para urinar. Lá se foi seu sono, seu descanso extremamente necessário para sua saúde.
Mas não é fácil para o seu doutor: ele prescreve Tansulosina, para ajudar na micção. Você melhora realmente. Contudo...não ejacula mais. Não sai nada! Ao doutor?
Vou parar por aqui.É deprimente. Isso não é medicina, não é saúde.
Essa história termina com uma situação cada vez mais comum: a derrocada em bloco da sua saúde. Você está obeso, sem disposição, com sofrível ereção, memória e concentração deficientes. Diabético, hipertenso. Dentes: nem vou falar. O peso elevado arrebentou seu joelho (um doutor cogitou colocar uma prótese para solucionar o problema). Surge na sua cabeça a ideia maluca de procurar um cirurgião bariátrico, para “reduzir seu estômago” e um psicoterapeuta, para cuidar do seu juízo destrambelhado, é aconselhado.
Sem grana, triste, ansioso, deprimido, pensando em dar fim à sua minguada vida e...doente, muito doente! Apesar dos “remédios” (ou por causa deles!).
A indústria farmacêutica? “Crescendo muito. Sempre bem, obrigado!”. Graças à sua valiosa contribuição por anos ou décadas. Seu doutor?  “Ótimo”, indo a congressos, com tudo pago pelos laboratórios. Tudo graças à sua doença. Ou à doença plantada passo-a-passo em sua vida.


*Publicado no jornal Bem Estar, edição nº 128, abril/2014.



O Brasil vive uma ficção dentro e fora do campo, diz Vargas Llosa.

Rodrigo Constantino transcreve Vargas LLosa.

Nem preciso dizer o quanto admiro Mario Vargas Llosa. Não só o escritor, que é um dos meus favoritos, mas o pensador liberal, incansável defensor da democracia e do livre mercado. Fiquei muito feliz, portanto, ao ver que o Prêmio Nobel de Literatura escreveu em El País um texto que vai exatamente ao encontro daquilo que disse em minha coluna da Veja esta semana. Recomendo veementemente a leitura na íntegra. Seguem alguns trechos:

[...] eu acredito que a culpa de Scolari não é somente sua, mas, talvez, uma manifestação no âmbito esportivo de um fenômeno que, já há algum tempo, representa todo o Brasil: viver uma ficção que é brutalmente desmentida por uma realidade profunda.
Tudo nasce com o governo de Luis Inácio ‘Lula’ da Silva (2003-2010), que, segundo o mito universalmente aceito, deu o impulso decisivo para o desenvolvimento econômico do Brasil, despertando assim esse gigante adormecido e posicionando-o na direção das grandes potências.

[...] Agora que quer se reeleger e a verdade sobre a condição da economia brasileira parece assumir o lugar do mito, muitos a responsabilizam pelo declínio veloz e pedem uma volta ao lulismo, o governo que semeou, com suas políticas mercantilistas e corruptas, as sementes da catástrofe.

A verdade é que não houve nenhum milagre naqueles anos, e sim uma miragem que só agora começa a se esvair, como ocorreu com o futebol brasileiro. Uma política populista como a que Lula praticou durante seus governos pôde produzir a ilusão de um progresso social e econômico que nada mais era do que um fugaz fogo de artifício. O endividamento que financiava os custosos programas sociais era, com frequência, uma cortina de fumaça para tráficos delituosos que levaram muitos ministros e altos funcionários daqueles anos (e dos atuais) à prisão e ao banco dos réus.

[...] As obras em si constituíam um caso flagrante de delírio messiânico e fantástica irresponsabilidade. Dos 12 estádios preparados, só oito seriam necessários, segundo alertou a própria FIFA, e o planejamento foi tão tosco que a metade das reformas da infraestrutura urbana e de transportes teve de ser cancelada ou só será concluída depois do campeonato. Não é de se estranhar que o protesto popular diante de semelhante esbanjamento, motivado por razões publicitárias e eleitoreiras, levasse milhares e milhares de brasileiros às ruas e mexesse com todo o Brasil.

[...] Apesar de um horizonte tão preocupante, o Estado continua crescendo de maneira imoderada – já gasta 40% do produto bruto – e multiplica os impostos ao mesmo tempo que as “correções” do mercado, o que fez com que se espalhasse a insegurança entre empresários e investidores. Apesar disso, segundo as pesquisas, Dilma Rousseff ganhará as próximas eleições de outubro, e continuará governando inspirada nas realizações e logros de Lula.

Se assim é, não só o povo brasileiro estará lavrando a própria ruína, e mais cedo do que tarde descobrirá que o mito sobre o qual está fundado o modelo brasileiro é uma ficção tão pouco séria como a da equipe de futebol que a Alemanha aniquilou. E descobrirá também que é muito mais difícil reconstruir um país do que destruí-lo. E que, em todos esses anos, primeiro com Lula e depois com Dilma, viveu uma mentira que seus filhos e seus netos irão pagar, quando tiverem de começar a reedificar a partir das raízes uma sociedade que aquelas políticas afundaram ainda mais no subdesenvolvimento.

[...] Por isso, quanto mais cedo cair a máscara desse suposto gigante no qual Lula transformou o Brasil, melhor para os brasileiros. O mito da seleção Canarinho nos fazia sonhar belos sonhos. Mas no futebol, como na política, é ruim viver sonhando, e sempre é preferível – embora seja doloroso – ater-se à verdade.
Acorda, Brasil!

Rodrigo Constantino.

*Rodrigo Constantino dos Santos é um economista e colunista brasileiro.


terça-feira, 13 de maio de 2014

Quem ela matou? - Por Hemerson Ari Mendes*

Bernardo, o seu enteado?
O filho da ex do marido?
Seria o que sobrou da ex, que não foi suicidado junto com ela?
O agregado incômodo, que necessita de cuidados e disponibilidade afetiva, seria essa uma possibilidade?
Talvez um concorrente na disputa infantil pelo afeto do provedor/pai pobre?
Ou seria o concorrente/inimigo da sua filha, com a qual estaria infantilmente identificada?
Seria o receptor de migalhas afetivas do marido, que denunciavam que ela não o tinha na totalidade e incondicionalmente?
Foi Bernardo vítima de um latrocínio, sendo o objeto roubado a sua potencial herança?
Estaria ela matando os aspectos insuportáveis do marido, como quem extirpa um tumor que causa deformidade no ideal narcisicamente planejado?
Ou estaria ela tentando livrar-se dos seus sentimentos e  desejos assassinos, algo que o faz, paradoxalmente, assassinando Bernardo, depositário da sua fúria.
Poderia ser uma tentativa de matar a imagem do marido/pai fraco, pusilânime, incapaz de ser continente da sua loucura assassina?
Seria um infanticídio, deslocando a fúria evocada pela sua filha para seu enteado, uma pessoa mais tolerável para sua moralidade dissociada?
Poderia Bernardo evocar a lembrança de irmãos, irmãs, primos e amigos que ela não pode eliminar na sua infância, mas que ela tem certeza que lhe roubaram o que entendia ser seu?
Seria ela uma assassina de aluguel, matando o enteado, no lugar do acovardado pai, que impossibilitado de assumir seus sentimentos e desejos, silenciosamente indica o desfecho para seus capangas?
Seria a repetição de um crime, que anteriormente não foi descoberto e punido e, portanto, repete-se na busca de uma expiação?
Talvez tenham sido vários os assassinados e as assassinas, inclusive alguns não citados. Só não creio que ela tenha matado o irmão da filha; pois, para enxergar esta relação é preciso ter uma mente que ela não tinha.

*Psicanalista (Sociedade Psicanalítica de Pelotas – Febrapsi - IPA), médico psiquiatra (UFPel), mestre em saúde e comportamento (UCPel).




sexta-feira, 25 de abril de 2014

ESSE MENINO ERA SEU FILHO

Autor: Fabrício Carpinejar

Não posso nem chamá-lo de caro ou prezado, mas apenas usar seu nome: Leandro. Educação e respeito vão soar como cinismo.

Tampouco posso chamá-lo pelo sobrenome para indicar formalidade. Perdeu o direito do sobrenome. Seu filho pequeno está enterrado em seu sobrenome para sempre. Ele carregava seu sobrenome, você não soube carregar coisa alguma dele.

Tenho enfrentado vários pesadelos desde que ouvi a notícia de que seu menino de 11 anos fora morto pela madrasta.

Que seu menino foi posto numa cova às margens de um rio em Frederico Westphalen (RS) e poderia estar ainda vivo. Coberto pela terra quando deveria ser coberto pelo edredon para não passar frio de noite.

Seu filho foi enganado. Toda a vida enganado. Toda a vida humilhado. Na hora de seu fim, aceitou o passeio para longe de Três Passos porque jurava que receberia uma televisão.

Quando seu menino acordar dentro da morte, ele vai chamá-lo. Assim como toda criança chama seu pai quando tem medo do escuro. Vai chamá-lo e onde estará?

Ele acreditava que você era o herói dele. Estava exagerando para pedir que o salvasse, não entendeu o apelo?

Você nem pai foi. Nem homem foi. Você foi o que restou.

Como médico, não acha Bernardo uma criança um pouco grande para fazer um aborto?

O que dirá para irmãzinha dele? Que Bernardo está no céu? Que é uma estrela?

Perdeu também o direito de mentir. É você e sua memória sozinhos no silêncio. Só resta a memória para quem matou a consciência.

Nunca encontrará perdão. Deixou Bernardo desamparado. Deixou Bernardo com as mesmas roupas curtas, o mesmo uniforme escolar surrado, desde que a mãe faleceu. Deixou seu filho mendigar atenção pela cidade. Pelo fórum.

Não entendo o que leva um homem a anular sua família anterior por uma nova namorada. O sexo é mais importante do que a paternidade? A bajulação é mais importante do que a ternura? Queria estar disponível para festas? Cortar gastos?

Fingiu que Bernardo não existia para não atrapalhar a ambição da sua mulher? Fingiu que Bernardo não havia nascido para atender à exclusividade de sua mulher?

Filho não é escolha, é responsabilidade. Já casamento é escolha...

Se a mulher não gostava de seu filho, não deveria ter recusado o relacionamento?

Como seria simples. Bastava dizer "Ou meu filho ou nada!". É o que se fala no início do namoro.

Para você, nada.

Não é que você não tem mais nada, você não é mais nada. Abdicou de seu filho para ficar com alguém. Você não se contentou em abandonar sua família para criar uma segunda família, você aniquilou sua família para criar uma segunda família.

Obrigava Bernardo a esperar fora de casa até você chegar do trabalho, agora é você quem espera fora de casa.

Obrigava Bernardo a lavar as mãos para brincar com a irmã. Pois tente lavar suas mãos agora para tocar no rosto dele.

Tente todos os dias de sua paternidade. Sangue não sai com a culpa.



domingo, 23 de março de 2014

Desculpe, Neymar, mas nesta Copa eu não torço por vocês.

Compositor: Edu Krieger 

Desculpe, Neymar,
Mas nesta Copa eu não torço por vocês
Estou cansado de assistir ao nosso povo
Definhando pouco a pouco
Nos programas das TVs
Enquanto a FIFA se preocupa com padrões
Somos guiados por ladrões
Que jogam sujo pra ganhar
Desculpe, Neymar,
Eu não torço desta vez. 

Parreira, eu vi
Aquele tetra fez o povo tão feliz
Mas não seremos verdadeiros campeões
Gastando mais de 10 bilhões
Pra fazer Copa no país
Temos estádios lindos e monumentais
Enquanto escolas e hospitais
Estão à beira de ruir
Parreira, eu vi
Um abismo entre Brasis.

Foi mal, Felipão,
Quando Cafu ergueu a taça e exibiu
Suas raízes num momento tão solene
Revelou Jardim Irene
Um retrato do Brasil
A primavera prometida não chegou
A vida vale mais que um gol
E as melhorias onde estão
Foi mal, Felipão,
Nossa pátria não floriu. 

Eu sei, torcedor,
Que a minha simples e sincera opinião
Não vai fazer você, que ganha e vive mal,
Deixar de ir até o final
Junto com nossa seleção
Mesmo sem grana pra pagar o ingresso caro
Nunca vai deixar de amar o
Nosso escrete aonde for
Eu sei, torcedor,
É você quem tem razão.