terça-feira, 13 de maio de 2014

Quem ela matou? - Por Hemerson Ari Mendes*

Bernardo, o seu enteado?
O filho da ex do marido?
Seria o que sobrou da ex, que não foi suicidado junto com ela?
O agregado incômodo, que necessita de cuidados e disponibilidade afetiva, seria essa uma possibilidade?
Talvez um concorrente na disputa infantil pelo afeto do provedor/pai pobre?
Ou seria o concorrente/inimigo da sua filha, com a qual estaria infantilmente identificada?
Seria o receptor de migalhas afetivas do marido, que denunciavam que ela não o tinha na totalidade e incondicionalmente?
Foi Bernardo vítima de um latrocínio, sendo o objeto roubado a sua potencial herança?
Estaria ela matando os aspectos insuportáveis do marido, como quem extirpa um tumor que causa deformidade no ideal narcisicamente planejado?
Ou estaria ela tentando livrar-se dos seus sentimentos e  desejos assassinos, algo que o faz, paradoxalmente, assassinando Bernardo, depositário da sua fúria.
Poderia ser uma tentativa de matar a imagem do marido/pai fraco, pusilânime, incapaz de ser continente da sua loucura assassina?
Seria um infanticídio, deslocando a fúria evocada pela sua filha para seu enteado, uma pessoa mais tolerável para sua moralidade dissociada?
Poderia Bernardo evocar a lembrança de irmãos, irmãs, primos e amigos que ela não pode eliminar na sua infância, mas que ela tem certeza que lhe roubaram o que entendia ser seu?
Seria ela uma assassina de aluguel, matando o enteado, no lugar do acovardado pai, que impossibilitado de assumir seus sentimentos e desejos, silenciosamente indica o desfecho para seus capangas?
Seria a repetição de um crime, que anteriormente não foi descoberto e punido e, portanto, repete-se na busca de uma expiação?
Talvez tenham sido vários os assassinados e as assassinas, inclusive alguns não citados. Só não creio que ela tenha matado o irmão da filha; pois, para enxergar esta relação é preciso ter uma mente que ela não tinha.

*Psicanalista (Sociedade Psicanalítica de Pelotas – Febrapsi - IPA), médico psiquiatra (UFPel), mestre em saúde e comportamento (UCPel).




sexta-feira, 25 de abril de 2014

ESSE MENINO ERA SEU FILHO

Autor: Fabrício Carpinejar

Não posso nem chamá-lo de caro ou prezado, mas apenas usar seu nome: Leandro. Educação e respeito vão soar como cinismo.

Tampouco posso chamá-lo pelo sobrenome para indicar formalidade. Perdeu o direito do sobrenome. Seu filho pequeno está enterrado em seu sobrenome para sempre. Ele carregava seu sobrenome, você não soube carregar coisa alguma dele.

Tenho enfrentado vários pesadelos desde que ouvi a notícia de que seu menino de 11 anos fora morto pela madrasta.

Que seu menino foi posto numa cova às margens de um rio em Frederico Westphalen (RS) e poderia estar ainda vivo. Coberto pela terra quando deveria ser coberto pelo edredon para não passar frio de noite.

Seu filho foi enganado. Toda a vida enganado. Toda a vida humilhado. Na hora de seu fim, aceitou o passeio para longe de Três Passos porque jurava que receberia uma televisão.

Quando seu menino acordar dentro da morte, ele vai chamá-lo. Assim como toda criança chama seu pai quando tem medo do escuro. Vai chamá-lo e onde estará?

Ele acreditava que você era o herói dele. Estava exagerando para pedir que o salvasse, não entendeu o apelo?

Você nem pai foi. Nem homem foi. Você foi o que restou.

Como médico, não acha Bernardo uma criança um pouco grande para fazer um aborto?

O que dirá para irmãzinha dele? Que Bernardo está no céu? Que é uma estrela?

Perdeu também o direito de mentir. É você e sua memória sozinhos no silêncio. Só resta a memória para quem matou a consciência.

Nunca encontrará perdão. Deixou Bernardo desamparado. Deixou Bernardo com as mesmas roupas curtas, o mesmo uniforme escolar surrado, desde que a mãe faleceu. Deixou seu filho mendigar atenção pela cidade. Pelo fórum.

Não entendo o que leva um homem a anular sua família anterior por uma nova namorada. O sexo é mais importante do que a paternidade? A bajulação é mais importante do que a ternura? Queria estar disponível para festas? Cortar gastos?

Fingiu que Bernardo não existia para não atrapalhar a ambição da sua mulher? Fingiu que Bernardo não havia nascido para atender à exclusividade de sua mulher?

Filho não é escolha, é responsabilidade. Já casamento é escolha...

Se a mulher não gostava de seu filho, não deveria ter recusado o relacionamento?

Como seria simples. Bastava dizer "Ou meu filho ou nada!". É o que se fala no início do namoro.

Para você, nada.

Não é que você não tem mais nada, você não é mais nada. Abdicou de seu filho para ficar com alguém. Você não se contentou em abandonar sua família para criar uma segunda família, você aniquilou sua família para criar uma segunda família.

Obrigava Bernardo a esperar fora de casa até você chegar do trabalho, agora é você quem espera fora de casa.

Obrigava Bernardo a lavar as mãos para brincar com a irmã. Pois tente lavar suas mãos agora para tocar no rosto dele.

Tente todos os dias de sua paternidade. Sangue não sai com a culpa.



domingo, 23 de março de 2014

Desculpe, Neymar, mas nesta Copa eu não torço por vocês.

Compositor: Edu Krieger 

Desculpe, Neymar,
Mas nesta Copa eu não torço por vocês
Estou cansado de assistir ao nosso povo
Definhando pouco a pouco
Nos programas das TVs
Enquanto a FIFA se preocupa com padrões
Somos guiados por ladrões
Que jogam sujo pra ganhar
Desculpe, Neymar,
Eu não torço desta vez. 

Parreira, eu vi
Aquele tetra fez o povo tão feliz
Mas não seremos verdadeiros campeões
Gastando mais de 10 bilhões
Pra fazer Copa no país
Temos estádios lindos e monumentais
Enquanto escolas e hospitais
Estão à beira de ruir
Parreira, eu vi
Um abismo entre Brasis.

Foi mal, Felipão,
Quando Cafu ergueu a taça e exibiu
Suas raízes num momento tão solene
Revelou Jardim Irene
Um retrato do Brasil
A primavera prometida não chegou
A vida vale mais que um gol
E as melhorias onde estão
Foi mal, Felipão,
Nossa pátria não floriu. 

Eu sei, torcedor,
Que a minha simples e sincera opinião
Não vai fazer você, que ganha e vive mal,
Deixar de ir até o final
Junto com nossa seleção
Mesmo sem grana pra pagar o ingresso caro
Nunca vai deixar de amar o
Nosso escrete aonde for
Eu sei, torcedor,
É você quem tem razão.



 

domingo, 16 de março de 2014

Maria Corina Machado – Uma Mulher Valente

Diante de tantas parlamentares brasileiras que não fazem nada para melhorar a situação do Brasil, pelo contrário, só têm feito uma burrada atrás da outra, o que tem me decepcionado muito, pois não foi para isso que as mulheres lutaram tanto para conquistar espaço no meio político, esta venezuelana tem a minha admiração: Maria Corina Machado.
 Deputada e oposicionista ao governo de Nicolas Maduro, ela liderou um protesto de mulheres do lado de fora da sede da Guarda Nacional Bolivariana, em Caracas, Venezuela, na última quarta-feira.
Una mujer valiente vale más que diez mil hombres cobardes.
 
 

Sobre Voos e Relacionamentos

Alguns relacionamentos são iguais a uma viagem de avião. No início, todos embarcam felizes e com certas expectativas. Mas quando o avião começa a subir, alguns ficam com medo e não relaxam em nenhum momento, sempre esperando pelo pior; outros se divertem o tempo inteiro e não estão nem aí se o avião vai cair ou não, o que importa é a jornada e não o destino. Há também os que ficam sob o encantamento da novidade e ficam fascinados por tudo, até mesmo pelo pouco alimento que é dado a bordo. O que é uma barrinha de cereal perto do que a viagem provoca aos demais sentidos?
 
Há os que ficam enjoados e reclamam por tudo; há os que entram em pânico e querem sair do avião a todo custo, mas são contidos por palavras de conforto ou pelo uso da força; há os que fingem estar tudo bem, mas ficam rezando fervorosamente para chegarem ilesos ao final.
 
Relacionamento bom é como um voo que, apesar das turbulências e do medo do desconhecido, transcorre tranquilo até a aterrisagem, com direito ao piloto  ser aclamado pela competência. As pessoas desembarcam ilesas para novas viagens; sejam juntas ou separadas, elas sobrevivem.
 
Relacionamentos infrutíferos são como um avião sequestrado por terroristas. Em mãos inexperientes e erradas, depois de um certo tempo perde o rumo, não dá mais sinal de vida, dá voltas e mais voltas sem direção e nem controle, perde a altitude até cair no mar. Não há sobreviventes, só o silêncio e o vazio do nada.
 
Sobre esta sensação de vazio, Martha Medeiros escreveu em um de seus livros sobre o fim de relacionamentos:
"Nunca sofri um acidente de avião, mas já ouvi relatos de sobreviventes. Eles percebem a perda de altitude, a potência enfraquecida das turbinas, o desastre iminente, até que acontece a parada definitiva da aeronave e ouve-se um barulho fora do normal, algo verdadeiramente assustador. Então, após o estrondo, sobe do chão um silêncio absoluto. Por alguns segundos, ninguém fala, ninguém se move. Todos em choque. Não se sabe o que aconteceu, mas sabe-se que é grave. Alguma coisa que existia não existe mais.
É a quietude amortizante de quem não respira, não pensa, não sente nada ainda.
Só então, depois desse vácuo de existência, desse breve período em que ninguém tem certeza se está vivo ou morto, começam a surgir os primeiros movimentos, os primeiros gemidos, uma sinfonia de lamentos que dará início ao que está por vir: o depois."