segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O GOVERNO RICO JÁ NÃO VÊ O POVO POBRE


por Percival Puggina. Artigo publicado em 05.08.2014.


A cartilha manda repetir sempre as mesmas coisas, ainda que não resistam a uma acareação com os fatos, porque a repetição se impõe à razão e acaba sendo mais convincente do que eles. Não importa que o realejo cause lesão por esforço repetitivo. O resultado compensa.
Assim, ao longo dos anos, nossos ouvidos enrouqueceram de escutar que o país vivia sob um sistema econômico iníquo, que gerava aberrantes desníveis de renda e concentração de riqueza. Tão repetida cantoria acabou por convencer cautos e incautos de que somente uma guinada para a esquerda poderia nos conduzir ao éden da igualdade, da justiça e da prosperidade geral. Gradualmente, então, foi se abrindo a porta para o socialismo, apesar de os fatos, pela janela, berrarem que isso é uma loucura e que tal sistema não consegue apresentar um único caso de prosperidade e democracia. Têm razão os fatos: o anunciado socialismo, sempre, excetuadas suas elites, igualou a todos na pobreza, e só ao Estado concedeu liberdades. Mas isso quase ninguém diz e é nesse caminho que estamos sendo lenta e docilmente conduzidos.
O mais insólito nesse percurso é o próprio governo e seu partido, que se declaram socialistas, após 12 anos de gestão, terem que negar os fatos que os olhos mostram e insistirem em que a pobreza diminuiu. Agravou-se, assim, a situação de todos os que são pobres de fato. Eles deixaram de existir nas contas do governo.
O efeito da repetição é tão eficiente que o sujeito que escreve o que acabei de escrever passa a ser visto como um brutamontes destituído de sentimentos humanos. De nada vale dizer que não há concentração de renda maior do que aquela promovida por um aparelho estatal que fica com quase a metade de tudo que a nação produz. De nada vale denunciar esse Robin Hood burocrata que toma de quem tem (e de quem não tem) para dar ao insaciável governo. De nada vale informar que essa brutal, perversa e inútil concentração de renda nas mãos do Estado é típica do socialismo, avessa ao empreendedorismo e à economia de mercado. Com o tempo, só fará aumentar a pobreza do país.
Escrevo de teimoso, portanto: a persistência da pobreza que o governo se recusa a reconhecer têm como causa esse crescente avanço do Estado sobre a economia nacional. Não bastasse a robusta mordida de leão, o governo, no curto prazo, ainda toma dívidas em nome das gerações futuras. Mais ganancioso e perverso, só traficante.





terça-feira, 15 de julho de 2014

Seria cômico, se não fosse trágico – Autor: Carlos Bayma

Tudo começou com uma pequena tristeza, tratada eficientemente com o “antidepressivo” mais moderno do mercado.
Você está com 30 anos, tem uma depressãozinha, uma tristeza persistente. O seu médico diz que passa logo: prescreve Fluoxetina.
Mas a Fluoxetina dificulta seu sono. Ele então indica Clonazepam, o Rivotril da vida. O Clonazepam deixa meio bobo ao acordar e reduz sua memória. Assim, você volta ao doutor. Ele te olha e nota que você aumentou de peso. Preescreve Sibutramina, que faz você  perder uns quilinhos, mas lhe dá uma taquicardia incômoda. Novo retorno ao doutor. Além da taquicardia, a “batedeira” no coração, ele nota que você também está com pressão alta. Então, te dá uma receita  de Losartana e Atenolol, este último para reduzir a sua taquicardia.
O tempo passa, você já está com 35 anos e toma Fluoxetina, Clonazepam, Sibutramina, Losartana e Atenolol. Mas, como a idade chega, é adequado um “polivitamínico”. O doutor manda que você compre  um ‘polivitamínico de A a Z”, que pra muito pouca coisa serve. Mas, como o Luciano Huck disse na TV que esse é ótimo e você acreditou, comprou.
Já são R$ 350,00 por mês, começa a pesar no orçamento. O dinheiro a ser gasto em investimentos e lazer escorrer para o ralo da indústria farmacêutica.
Você começa a  ficar nervoso, preocupado e ansioso (apesar da Fluoxetina e do Clonazepam), pois as contas não batem no fim do mês. Começa a sentir dor no estômago e azia e seu intestino fica “preso”. Vai a outro doutor. Prescrição: “omeprazol + domperidona +  laxante ‘natural’, e você vai ficar ótimo!”.
Os sintomas realmente somem, mas só os sintomas, apesar da “escangalhação” que virou sua flora intestinal. Assim, outras queixas aparecem. Dentre elas, uma é particularmente perturbadora: aos 37 anos, apenas, você não tem mais aquela potência sexual. Além de estar “brochando” com freqüência, tem pouquíssimo esperma e a libido está abaixo dos pés.
Para o doutor da medicina da doença, isso não é problema.  Você escolhe o remédio que solucionará a questão: Sildanafil, Tadalafil, Lodenafil ou Vardenafil. Escolha por pim-pam-pum. E sua potência melhora, mas, como consequência,  surge uma tremenda dor de cabeça, mais palpitação, vermelhidão e coriza. OK, sem problemas, basta aumentar a dose do Atenolol e tomar Neosaldina antes do sexo.  Se você precisar, instile um “remedinho” para seu corrimento nasal, ele sobrecarrega seu coração, mas seu nariz fica uma beleza!
Quando tudo parecia solucionado, aos 40 anos, você percebe que seus dentes estão apodrecendo e caindo. (Entre nós, é o antidepressivo). E tome grana para gastar com o dentista. Nessa mesma época, outra constatação: sua memória está falhando bem mais que o habitual. Mais uma vez, para seu doutor, isso não é problema: Ginkgo Biloba é prescrito.
Nos exames de rotina, sua glicose está em 110 e seu colesterol em 220. Nas costas da folha do receituário, o doutor prescreve Metformina + Sinvastatina. “É para evitar diabetes e infarto”, tranquiliza o cuidador de sua saúde (?!).
Aos 40 e poucos anos, você já toma Fluoxetina, Clonazapam, Losartana, Atenolol, Polivitamínico de A a Z, Omeprazol, Domperidona, laxante “natural”, Sildenafil, Vardenafil, Lodenafil ou Tadalafil, Neosaldina, Ginkgo Biloba, Metformina e Sinvatatina. (Convenhamos, isto está muito longe de ser saudável!). Mil reais por mês! E sem saúde!!!
Entretanto, você ainda continua deprimido, cansado e engordando. Você vai ao doutor, de novo. Troca a Fluoxetina por Duloxetina, um antidepressivo “mais moderno”. Após dois meses, você se sente melhor. (ou um pouco ‘menos ruim”). Porém, outro contratempo surge: o novo antidepressivo o faz urinar demoradamente e com jato fraco. Passa a ser necessário levantar duas vezes à noite para urinar. Lá se foi seu sono, seu descanso extremamente necessário para sua saúde.
Mas não é fácil para o seu doutor: ele prescreve Tansulosina, para ajudar na micção. Você melhora realmente. Contudo...não ejacula mais. Não sai nada! Ao doutor?
Vou parar por aqui.É deprimente. Isso não é medicina, não é saúde.
Essa história termina com uma situação cada vez mais comum: a derrocada em bloco da sua saúde. Você está obeso, sem disposição, com sofrível ereção, memória e concentração deficientes. Diabético, hipertenso. Dentes: nem vou falar. O peso elevado arrebentou seu joelho (um doutor cogitou colocar uma prótese para solucionar o problema). Surge na sua cabeça a ideia maluca de procurar um cirurgião bariátrico, para “reduzir seu estômago” e um psicoterapeuta, para cuidar do seu juízo destrambelhado, é aconselhado.
Sem grana, triste, ansioso, deprimido, pensando em dar fim à sua minguada vida e...doente, muito doente! Apesar dos “remédios” (ou por causa deles!).
A indústria farmacêutica? “Crescendo muito. Sempre bem, obrigado!”. Graças à sua valiosa contribuição por anos ou décadas. Seu doutor?  “Ótimo”, indo a congressos, com tudo pago pelos laboratórios. Tudo graças à sua doença. Ou à doença plantada passo-a-passo em sua vida.


*Publicado no jornal Bem Estar, edição nº 128, abril/2014.



O Brasil vive uma ficção dentro e fora do campo, diz Vargas Llosa.

Rodrigo Constantino transcreve Vargas LLosa.

Nem preciso dizer o quanto admiro Mario Vargas Llosa. Não só o escritor, que é um dos meus favoritos, mas o pensador liberal, incansável defensor da democracia e do livre mercado. Fiquei muito feliz, portanto, ao ver que o Prêmio Nobel de Literatura escreveu em El País um texto que vai exatamente ao encontro daquilo que disse em minha coluna da Veja esta semana. Recomendo veementemente a leitura na íntegra. Seguem alguns trechos:

[...] eu acredito que a culpa de Scolari não é somente sua, mas, talvez, uma manifestação no âmbito esportivo de um fenômeno que, já há algum tempo, representa todo o Brasil: viver uma ficção que é brutalmente desmentida por uma realidade profunda.
Tudo nasce com o governo de Luis Inácio ‘Lula’ da Silva (2003-2010), que, segundo o mito universalmente aceito, deu o impulso decisivo para o desenvolvimento econômico do Brasil, despertando assim esse gigante adormecido e posicionando-o na direção das grandes potências.

[...] Agora que quer se reeleger e a verdade sobre a condição da economia brasileira parece assumir o lugar do mito, muitos a responsabilizam pelo declínio veloz e pedem uma volta ao lulismo, o governo que semeou, com suas políticas mercantilistas e corruptas, as sementes da catástrofe.

A verdade é que não houve nenhum milagre naqueles anos, e sim uma miragem que só agora começa a se esvair, como ocorreu com o futebol brasileiro. Uma política populista como a que Lula praticou durante seus governos pôde produzir a ilusão de um progresso social e econômico que nada mais era do que um fugaz fogo de artifício. O endividamento que financiava os custosos programas sociais era, com frequência, uma cortina de fumaça para tráficos delituosos que levaram muitos ministros e altos funcionários daqueles anos (e dos atuais) à prisão e ao banco dos réus.

[...] As obras em si constituíam um caso flagrante de delírio messiânico e fantástica irresponsabilidade. Dos 12 estádios preparados, só oito seriam necessários, segundo alertou a própria FIFA, e o planejamento foi tão tosco que a metade das reformas da infraestrutura urbana e de transportes teve de ser cancelada ou só será concluída depois do campeonato. Não é de se estranhar que o protesto popular diante de semelhante esbanjamento, motivado por razões publicitárias e eleitoreiras, levasse milhares e milhares de brasileiros às ruas e mexesse com todo o Brasil.

[...] Apesar de um horizonte tão preocupante, o Estado continua crescendo de maneira imoderada – já gasta 40% do produto bruto – e multiplica os impostos ao mesmo tempo que as “correções” do mercado, o que fez com que se espalhasse a insegurança entre empresários e investidores. Apesar disso, segundo as pesquisas, Dilma Rousseff ganhará as próximas eleições de outubro, e continuará governando inspirada nas realizações e logros de Lula.

Se assim é, não só o povo brasileiro estará lavrando a própria ruína, e mais cedo do que tarde descobrirá que o mito sobre o qual está fundado o modelo brasileiro é uma ficção tão pouco séria como a da equipe de futebol que a Alemanha aniquilou. E descobrirá também que é muito mais difícil reconstruir um país do que destruí-lo. E que, em todos esses anos, primeiro com Lula e depois com Dilma, viveu uma mentira que seus filhos e seus netos irão pagar, quando tiverem de começar a reedificar a partir das raízes uma sociedade que aquelas políticas afundaram ainda mais no subdesenvolvimento.

[...] Por isso, quanto mais cedo cair a máscara desse suposto gigante no qual Lula transformou o Brasil, melhor para os brasileiros. O mito da seleção Canarinho nos fazia sonhar belos sonhos. Mas no futebol, como na política, é ruim viver sonhando, e sempre é preferível – embora seja doloroso – ater-se à verdade.
Acorda, Brasil!

Rodrigo Constantino.

*Rodrigo Constantino dos Santos é um economista e colunista brasileiro.


terça-feira, 13 de maio de 2014

Quem ela matou? - Por Hemerson Ari Mendes*

Bernardo, o seu enteado?
O filho da ex do marido?
Seria o que sobrou da ex, que não foi suicidado junto com ela?
O agregado incômodo, que necessita de cuidados e disponibilidade afetiva, seria essa uma possibilidade?
Talvez um concorrente na disputa infantil pelo afeto do provedor/pai pobre?
Ou seria o concorrente/inimigo da sua filha, com a qual estaria infantilmente identificada?
Seria o receptor de migalhas afetivas do marido, que denunciavam que ela não o tinha na totalidade e incondicionalmente?
Foi Bernardo vítima de um latrocínio, sendo o objeto roubado a sua potencial herança?
Estaria ela matando os aspectos insuportáveis do marido, como quem extirpa um tumor que causa deformidade no ideal narcisicamente planejado?
Ou estaria ela tentando livrar-se dos seus sentimentos e  desejos assassinos, algo que o faz, paradoxalmente, assassinando Bernardo, depositário da sua fúria.
Poderia ser uma tentativa de matar a imagem do marido/pai fraco, pusilânime, incapaz de ser continente da sua loucura assassina?
Seria um infanticídio, deslocando a fúria evocada pela sua filha para seu enteado, uma pessoa mais tolerável para sua moralidade dissociada?
Poderia Bernardo evocar a lembrança de irmãos, irmãs, primos e amigos que ela não pode eliminar na sua infância, mas que ela tem certeza que lhe roubaram o que entendia ser seu?
Seria ela uma assassina de aluguel, matando o enteado, no lugar do acovardado pai, que impossibilitado de assumir seus sentimentos e desejos, silenciosamente indica o desfecho para seus capangas?
Seria a repetição de um crime, que anteriormente não foi descoberto e punido e, portanto, repete-se na busca de uma expiação?
Talvez tenham sido vários os assassinados e as assassinas, inclusive alguns não citados. Só não creio que ela tenha matado o irmão da filha; pois, para enxergar esta relação é preciso ter uma mente que ela não tinha.

*Psicanalista (Sociedade Psicanalítica de Pelotas – Febrapsi - IPA), médico psiquiatra (UFPel), mestre em saúde e comportamento (UCPel).




sexta-feira, 25 de abril de 2014

ESSE MENINO ERA SEU FILHO

Autor: Fabrício Carpinejar

Não posso nem chamá-lo de caro ou prezado, mas apenas usar seu nome: Leandro. Educação e respeito vão soar como cinismo.

Tampouco posso chamá-lo pelo sobrenome para indicar formalidade. Perdeu o direito do sobrenome. Seu filho pequeno está enterrado em seu sobrenome para sempre. Ele carregava seu sobrenome, você não soube carregar coisa alguma dele.

Tenho enfrentado vários pesadelos desde que ouvi a notícia de que seu menino de 11 anos fora morto pela madrasta.

Que seu menino foi posto numa cova às margens de um rio em Frederico Westphalen (RS) e poderia estar ainda vivo. Coberto pela terra quando deveria ser coberto pelo edredon para não passar frio de noite.

Seu filho foi enganado. Toda a vida enganado. Toda a vida humilhado. Na hora de seu fim, aceitou o passeio para longe de Três Passos porque jurava que receberia uma televisão.

Quando seu menino acordar dentro da morte, ele vai chamá-lo. Assim como toda criança chama seu pai quando tem medo do escuro. Vai chamá-lo e onde estará?

Ele acreditava que você era o herói dele. Estava exagerando para pedir que o salvasse, não entendeu o apelo?

Você nem pai foi. Nem homem foi. Você foi o que restou.

Como médico, não acha Bernardo uma criança um pouco grande para fazer um aborto?

O que dirá para irmãzinha dele? Que Bernardo está no céu? Que é uma estrela?

Perdeu também o direito de mentir. É você e sua memória sozinhos no silêncio. Só resta a memória para quem matou a consciência.

Nunca encontrará perdão. Deixou Bernardo desamparado. Deixou Bernardo com as mesmas roupas curtas, o mesmo uniforme escolar surrado, desde que a mãe faleceu. Deixou seu filho mendigar atenção pela cidade. Pelo fórum.

Não entendo o que leva um homem a anular sua família anterior por uma nova namorada. O sexo é mais importante do que a paternidade? A bajulação é mais importante do que a ternura? Queria estar disponível para festas? Cortar gastos?

Fingiu que Bernardo não existia para não atrapalhar a ambição da sua mulher? Fingiu que Bernardo não havia nascido para atender à exclusividade de sua mulher?

Filho não é escolha, é responsabilidade. Já casamento é escolha...

Se a mulher não gostava de seu filho, não deveria ter recusado o relacionamento?

Como seria simples. Bastava dizer "Ou meu filho ou nada!". É o que se fala no início do namoro.

Para você, nada.

Não é que você não tem mais nada, você não é mais nada. Abdicou de seu filho para ficar com alguém. Você não se contentou em abandonar sua família para criar uma segunda família, você aniquilou sua família para criar uma segunda família.

Obrigava Bernardo a esperar fora de casa até você chegar do trabalho, agora é você quem espera fora de casa.

Obrigava Bernardo a lavar as mãos para brincar com a irmã. Pois tente lavar suas mãos agora para tocar no rosto dele.

Tente todos os dias de sua paternidade. Sangue não sai com a culpa.