domingo, 23 de outubro de 2011

Preconceito

É preciso limitar a palavra "preconceito". Nem sempre uma piada, uma brincadeira, uma analogia ou uma atitude intolerante se caracteriza como um ato discriminatório. Preconceito é uma questão de atitude, de reagir de forma desfavorável diante das diferenças, tentando destruir o que não se aceita. Posso fazer uma piada envolvendo uma opção sexual ou uma profissão, por exemplo, a de Motoboy, mas isso não significa que sairei agredindo ou apedrejando gays ou motoboys. Nada tenho contra o referido profissional, pois qualquer trabalho dignifica o homem, mas que a maioria é imprudente, ah, isso é. Se eu for reagir de maneira agressiva, será contra a imprudência, mas jamais contra quem a praticou. Quem a pratica deve ter preconceito para consigo mesmo.
Em relação a piadas sobre a opção sexual, existem miríadas de piadas por aí, assim como existem piadas de português, de chinês, de gordo, de pobre, de gaúcho, de mineiros etc.
Enfim, preconceito existe apenas na cabeça de quem não se aceita como realmente é e tem vergonha de si mesmo.

Rafinha Bastos X Wanessa Camargo

Rafinha foi infeliz na piada - aliás, de mau gosto -, assim como todos os chamados "Cassetas" um dia o foram ao fazerem piadas pejorativas sobre a opção sexual dos gaúchos. O problema deste país é que DÃO MUITA IMPORTÂNCIA AOS COMEDIANTES E LEVAM NA BRINCADEIRA OS POLÍTICOS. Rafinha certamente pagará uma enorme indenização à cantora atingida e responderá pelos crimes de danos morais e constrangimento ilegal. Mas, pergunto-me: por que não são indenizadas as famílias que perderam um pai ou um filho para a criminalidade? Por que os políticos não são condenados a devolver aos cofres públicos o dinheiro que roubaram do Erário Público ou a devolver os bens comprados com dinheiro desviado da Saúde? Invertam as prioridades: ignorem os comediantes, pois estão aí somente para dizerem besteiras, e levem a sério as falcatruas dos políticos. O bom exemplo sempre tem de vir de cima.

Ninguém é uma ilha

Sartre dizia que o homem por si só não pode se conhecer em sua totalidade; que só através dos olhos de outras pessoas é que alguém consegue ver-se como parte do mundo. Cada pessoa, embora não tenha acesso às consciências das outras pessoas, pode reconhecer nelas o que tem de igual. E cada um precisa desse reconhecimento.
Uma pessoa não pode ter acesso à sua própria essência, pois é um eterno "tornar-se", um "vir a ser" que nunca se completa. Só através dos olhos dos outros ela pode ter acesso à sua própria essência, ainda que temporária. E só a convivência é capaz de lhe dar a certeza de que está fazendo as escolhas que deseja. Daí vem a ideia de que “o inferno são os outros”. Embora sejam os outros que muitas vezes podem impossibilitar a concretização dos nossos sonhos ou projetos, não podemos evitar sua convivência. Sem eles, nossos projetos não fariam sentido.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Anjos das Ruas

O dia das crianças deveria ser marcado por ações voltadas àquelas crianças que realmente precisam ser lembradas: crianças que sofrem algum tipo de abandono ou foram vítimas da violência e do descaso dos pais. Entretanto, comerciantes comemoram o lucro que obtiveram com a venda de brinquedos e equipamentos caros.
A estas crianças impossibilitadas de receber um beijo sequer, eu desejo que possam ser felizes, custe o que custar.

“Andando pelas ruas
Eu vejo algo mais do que arranha-céus
É a fome e a miséria
Dos verdadeiros filhos de Deus
Vejo almas presas chorando em meio à dor
Dor de espírito clamando por amor

Anjos das ruas
Anjos que não podem voar
Pra fugir do abandono
E um futuro poder encontrar
Anjos das ruas
Anjos que não podem sonhar
Pois a calçada é um berço
Onde não sabem se vão acordar

Às vezes se esquecem de que são seres humanos
Com um coração sedento pra amar

Vendendo seus corpos por poucos trocados
Sem medo da morte o relento é seu lar
Choros, rangidos, almas pra salvar”.

sábado, 24 de setembro de 2011

Aprendendo a caminhar

A caminhada sempre começa com o primeiro passo, e este, para muitas pessoas, é o mais difícil. Lembro-me de um provérbio que dizia assim: “O importante é dar um passo, por menor que seja mesmo existindo um ponto pelo qual não passa a coragem humana”. Os cautelosos param exatamente neste ponto e avaliam os prós e contras antes de prosseguir. Os corajosos ultrapassam-no mesmo sabendo que poderão encontrar abismos e paisagens inóspitas.  

Já tive cautela e hesitei, mas também já ultrapassei limites. Já acertei, mas também errei; já estive perdida, mas acabei me encontrando; entretanto, jamais me permiti ficar paralisada. Sempre dei um passo à frente, mas jamais dei um sequer para trás, apesar de também ser outra forma de caminho, assim como também o é perder-se.

Hoje entendo que o medo é natural e humano, mas não pode ser paralisante. Sei que uma forma de defesa, muitas vezes, é simplesmente não fazer nada e esperar que todas as forças da natureza se reúnam para me tirar de um sufoco. É uma defesa válida, mas somente quando não reagir significa não correr riscos desnecessários ou que atentem à minha vida.

Não importa que tipo de ação ou reação eu tiver perante fatos que aconteçam em minha vida, eu sofrerei as consequências. Aprendi que agir é um impulso que leva um ser humano em direção ao que ele deseja, e que reagir é uma forma de defesa contra o que se deseja afastar. Uma defesa boa é reagir de forma a não se perder o foco na realidade, é manter-se coerente num mundo de sinais confusos. Uma defesa ruim é pior que o mal que se quer afastar. E o que seria uma defesa ruim?

É permitir que os medos sobrepujem nossas melhores intenções, é negar um fato angustiante e tentar esquecê-lo em vez de enfrentá-lo, é manter-se no mesmo lugar e formar fila com os resignados ou com  aqueles que já perderam a capacidade de indignar-se. Ah, sim, indignar-se também é caminho, mas que leve a mudanças significativas e que visem a um bem comum.