domingo, 6 de novembro de 2011

A Proximidade do Fim Dá o Senso de Raridade (*)

Não faz 24 horas que li a última página do livro Longamente, de Erik Orsenna, e já estou com saudades. É um romance francês que me foi indicado por um amigo e que não resisto em indicar para você: você que gosta de histórias de amor pouco ortodoxas, você que preza um texto inventivo e extremamente bem escrito, você que reconhece a dificuldade de se lutar contra as conveniências, você que se adapta meio contra a vontade a um mundo que oferece opções restritas de comportamento, você que gosta tanto de ler de viver.

Foi neste livro que destaquei, entre tantos trechos definitivos, uma frase que estava aplicada ao amor, mas que se aplica, na verdade, a tudo: "A proximidade do fim dá o senso da raridade". No livro, o risco de um amor acabar deu a um dos amantes a súbita noção do quão raro era aquele sentimento e de como seria impossível desfazer-se da relação. É no amor que mais testamos essa verdade: na iminência da separação, nosso músculo cardíaco convoca às pressas todas as emoções dispersadas e recobra seus batimentos, enquanto manda avisos urgentes ao cérebro: não desista, não desista, não desista.

Vale para o amor, vale para a vida. A proximidade do fim é algo que comove. Outro dia, vi uma jovem apresentadora de televisão debulhar-se em lágrimas, ao vivo, por estar gravando o último programa pela emissora que trabalhava, e já havia assinado contrato com outra. Nenhum arrependimento, nenhuma armação de marketing. Era o senso de raridade que se manifestando frente à câmera, a raridade de ter feito amigos, de ter obtido sucesso, de ter passado por algo verdadeiramente bom.

O senso da raridade sempre nos intercepta na proximidade de uma despedida. Costumamos compreender as coisas tarde demais. Passamos muito tempo ausentes de nós mesmos, anestesiados por um ritmo de vida que parece imutável, até que muda. Não é de estranhar que seja na vizinhança da morte que o senso de raridade nos arrebate: a raridade de poder caminhar sem amparar-se em ninguém, de poder enxergar o mar sem embaçamento da vista, de pronunciar a palavra futuro sem constrangimento.

É da raridade de estar vivo que trata o livro Longamente. Da duração eterna de grandes amores, da duração das amizades, da duração de nossas convicções e de nossas esperanças, de tudo o que é longo o suficiente para permitir construções e morada. Longo o suficiente para ensinar que as advertências da razão sempre serão menos raras do que o impulso dos instintos.



Longamente – Erik Orsenna

Um dia, no Jardim Botânico de Paris, Gabriel, um paisagista, conhece Elisabeth, uma especialista em comércio internacional e alta funcionária do governo francês. Começa, então, um relacionamento amoroso, desde o início marcado pela impossibilidade - ela não aceita abrir mão do marido e dos filhos -, mas que mesmo assim duraria mais de três décadas. Esta sofisticada história de amor entre pessoas maduras é o tema de Longamente, do francês Erik Orsenna.
Festejado como uma celebração da mulher e do amor adúltero, o livro mostra mais que isso. Sutil e elegante como se deve esperar de um "amor à francesa", o autor também se utiliza do humor e inverte alguns papéis convencionais para descrever o que podemos chamar de a "arte de viver um adultério". Enquanto Elisabeth se mostra inflexível e prática, Gabriel desfaz seu casamento e passa a seguir a amante, sempre de prontidão para estar onde quer que ela esteja.

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