segunda-feira, 18 de abril de 2011

Pra Rua Me Levar

Para o poeta Fernando Pessoa, “escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida”.
Acho que o poeta quis dizer que, após transpor para uma folha de papel todos os pensamentos e sentimentos que o perturbavam, sentia-se aliviado e com a mente vazia. Um suave esquecimento de si mesmo e de seus problemas.

Creio que é por isso que tantos psicólogos e psicanalistas têm a mania de pedir aos seus pacientes para que descrevam sentimentos numa espécie de diário, como se tal atividade fosse deixá-los mais perceptivos de seu “eu” mais profundo. Menos pensamentos, mais emoções. Não se trata de ignorar a vida, mas de senti-la, deixá-la aflorar, não deixar que nada fique represado no inconsciente.

Tenho uma maneira para pensar menos e sentir mais: escuto música. Não qualquer música, mas àquela que possa ter deixado seu autor de certa forma aliviado por ter contado a sua história. Na letra da canção está a sua alma, seus sentimentos, sua filosofia de vida, não importa a melodia que a acompanha. Mas tem de ser agradável aos meus ouvidos.

Não esqueço as palavras de meu pai cada vez que escutava a música A Viagem, com o Nelson Gonçalves. Ele dizia que o autor só podia estar muito apaixonado quando escreveu a letra, de tão pungente que era.

O que me deixa fascinada é como numa canção pode estar contida uma história completa. Muitos livros deram origem a filmes, mas o que dizer daquelas músicas que também inspiraram filmes, como é caso de Blue Velvet (Veludo Azul), de Bobby Vinton, que deu origem ao filme homônimo interpretado pela atriz Isabella Rossellini? Não somente Blue Velvet, mas também Mona Lisa, de Nat King Cole. No Brasil, temos a música Menino da Porteira entre tantas outras.

Mais uma tergiversação – eu sou prolixa mesmo – antes de comentar a linda canção Pra Rua Me Levar, da Ana Carolina. Está claro que quando ela escreveu a letra não estava ignorando a vida, mas a estava percebendo, intensamente, em si mesma.

A interpretação da letra é fácil e até daria um bom filme:

Ela não quer ser como a maioria das pessoas que vê na busca de um novo amor uma forma de preencher vazios existenciais. Ela sabe que a solidão é necessária, imprescindível para que possa refletir acerca do que realmente pode ser importante em sua vida. Aliás, não se preocupa e não se desgasta com o fato de estar só. Até prefere estar passando por este momento em que pode ter esse encontro consigo mesma.

Já possui maturidade suficiente para suportar as adversidades que possam aparecer em seu caminho, sem afligir-se. Não age mais por impulsos, pois sabe que existe sempre o momento certo para agir, e este momento chega quando seu coração diz: “Agora é a hora. Vá em frente”.

A frase “vou deixar a rua me levar” não significa que ela vai “cair na gandaia”, divertir-se como uma louca ou perder tempo com futilidades. Significa que ela vai permitir-se ser guiada pela vida, deixar que a natureza cumpra a sua parte. Não forçará nada, quer deixar que tudo ocorra naturalmente, mesmo que a saudade por um certo alguém aperte seu peito.

Todavia, apesar desse afã em viver a vida em toda a sua plenitude, ela sabe que muitas coisas ainda devem ser aprendidas, que não sabe tudo. É preciso cumprir certas promessas que fez a si mesma, mudar, renovar-se. Talvez até pedir perdão à pessoa que porventura ela tenha magoado, mesmo que essa pessoa não se importe tanto com isso e não a queira ouvir.

A Ana Carolina usou poucas palavras e conseguiu dizer muito, eu sei, mas cada um pode interpretar a obra de um autor da maneira que quiser – ou que melhor convier, depende da percepção do momento pelo qual estiver passando.


3 comentários:

  1. Boa noite!
    Passando para lhe parabenizar pela interpretacao da musica,sinceramente perfeita!

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  2. A letra da música: pra rua me levar é de Antonio Villeroy!!!!!!!! Foi composta para Maria Bethânia!!!

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  3. Bela percepção da letra...

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