sábado, 30 de abril de 2011

Amor, Saudade e Maresia

Há três coisas que ninguém consegue definir com certeza: amor, saudade e maresia.

Amor, porque é um sentimento subjetivo demais para que possa ser explicado cientificamente. Não há uma verdade absoluta, somente pressupostos de como se deve amar algo ou alguém. Uns acham que amar significa gritar aos quatro ventos esse amor - e precisam, também, ouvir a todo instante o quanto são amados -, enquanto outros acham que gestos expressam mais que palavras.  Há quem ame de maneira altruísta, sem esperar nada em troca, e há aqueles que somente se sentem amados se receberem “doações materiais”. Amor, para algumas pessoas, é algo divino, fraternal; para outras, amar significa rastejar com os joelhos sangrando e também esperar que o outro rasteje.

Saudade é algo indefinível. Pode ser algo bom ou ruim. Pode ser uma doce recordação ou a dor de uma ausência, uma longa e prazerosa espera pelo reencontro ou a angústia de esperar. Uns sentem saudades do que fizeram; outros, das coisas que deixaram de fazer, seja por burrice ou apenas ignorância de si mesmos.

Maresia é uma percepção, um cheiro, é algo que está no ar. Uns a percebem pela corrosão acelerada em cadeiras, carros e portões de ferro, causada pela presença de sais em micro gotículas de água de mar, ou seja, como algo nocivo e destruidor. Mas outros a sentem pelo cheiro, que tanto pode ser bom ou ruim.  Para mim, aquele cheiro característico das regiões próximas ao litoral é inebriante. Para outros, trata-se do cheiro ruim da baixa-mar.

Hoje brinquei de fazer analogia entre as três palavras. E cheguei ao seguinte pensamento: amor e saudade são sentimentos prazerosos, mas, dependendo da maneira como as pessoas usam seus sentidos, podem corroer até as melhores intenções.

Certa vez alguém me disse que dificilmente uma pessoa generosa se acerta com uma egoísta. Há um choque de vontades, de desejos. Assim como uma pessoa simples, sem propensão para a tirania, jamais daria certo com uma megalomaníaca. Pessoas tão contrárias na maneira de dar e receber amor podem tanto aprender com suas diferenças quanto deixar-se submeter a sentimentos corrosivos e viverem em clima de guerra.

Uns dizem que os opostos se atraem. Até acredito, pois uma pessoa egoísta precisa de uma generosa para satisfazer seus desejos infantis, assim como o megalomaníaco precisa do subserviente para saciar seus desejos de poder e superioridade. Outros acham que são as semelhanças que unem um casal. Nem sempre. Já vi muitos casais com diversas afinidades ficarem enjoados de tanto se enxergarem um no outro. Depois de certa idade, espelhos já não são necessários.

Enfim, essa prolixidade toda é para explicar que o amor não tem lógica alguma. Não dá para julgar as pessoas pela maneira como costumam demonstrar o que sentem.

Conforme a cineasta Tizuka Yamasaki, “o que diferencia uma pessoa da outra é o seu imaginário, a interpretação que dá aos fatos da vida”, só que há pessoas que utilizam o imaginário para analisar os outros e depois criticá-los, caso estes não pensem, amem ou ajam da mesma maneira que elas (na pior das hipóteses, que adivinhem seus desejos). Penso que são justamente as pessoas que não vivem a realidade, mas as fantasias ocasionadas pelo desejo insano de sentir-se amadas, que se sentem espancadas à menor contrariedade. Peça a alguém que lhe explique por que acha que você é assim ou assado. Duvido que obtenha respostas coerentes. E nem tente explicar a essa pessoa que você tem uma maneira peculiar de enxergar a si mesmo (a) e que é diferente do que ela interpreta a seu respeito. Pessoas assim não entendem pensamentos filosóficos, pois vivem voltadas à fantasia de como os outros devem ser.

Aquilo que não pode ser explicado de forma racional ou científica é apenas um paradigma. E para o amor e a saudade jamais haverá modelos de conduta a serem seguidos. Cada um vive do seu jeito. Ninguém poderá nos ensinar como devemos amar ou sentir. Ficamos de pé ou somos derrubados, mesmo assim fazemos tudo à nossa maneira. E não podemos culpar ninguém por isso.

Em relação à maresia, dependendo do tipo de material submetido a ela, não causará danos. Ficará quieta, cumprindo seu papel na Natureza. A degradação só atinge aquilo que não lhe opõe resistência ou que se quebra com facilidade. Em se tratando de seres humanos, só sofre ações corrosivas aquele que ainda não aprendeu a perceber sua própria natureza e nem a interrogá-la. Pelo contrário, compraz-se em lançar intempéries à vida alheia.


Obs.: Eu só queria comentar sobre a analogia entre amor, saudade e maresia e acabou se transformando nisso. Culpa do meu imaginário ou da minha natureza corrosiva. Salve-se quem puder!

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